Autor: Marcelo do Nascimento

Que é feito de Seu Queiroz?

Por Jodeval Duarte
(jornal Pesqueira Notícias / reprodução)
Ele passou por Pesqueira plantando o futuro. Deu voz mais extensa à população, fez uma pequena revolução criando a Companhia Telefônica de Pesqueira. E quando faltava luz – principalmente no Cinema Moderno na hora da série de Flash Gordon – era a ele que recorriam. Tempos de emoções partilhadas, tempos de vizinhanças como uma grande clube familiar. E Seu Queiroz teve muito a ver com isso. Quando? Eis a questão. Busquei, cascavilhei, perguntei, cá fora e em Pesqueira, e nada. Um silêncio e uma raridade, tanto quanto esse termo “cascavilhei”, que não se encontra no Dicionário da Academia Brasileira de Letras com a nova ortografia, sequer no Dicionário Houaiss (conciso, é verdade), mas lá está no magnífico Caldas Aulete, que nunca me deixou na mão. Cascavilhar (termo de uso no Nordeste, nosso Nordeste), que quer dizer remexer, esgaravatar à procura de alguma coisa (ou de alguém, acrescento).
O que cascavilho, então: Que é feito da memória de Seu Queiroz? Quem ainda guarda alguma lembrança, além do que foi deixado por Jarival Cordeiro no extenso artigo que fez para falar dele, de Tito Wanderley e Jurandir Brito de Freitas? Ali estão traços de alguns episódios da história pesqueirense de Seu Queiroz e não é pouco o que ele construiu, pelo que se torna difícil entender o monumental silêncio que cerca a história desse homem que, diz Jarival, “deu a Pesqueira status e ao povo um meio de comunicação muito bom”, além de ter sido chefe da Casa de Força, quando não tinha a energia de Paulo Afonso. Pois bem, procurei informação no arquivo público municipal e nada. Apenas  uma luz começa a brilhar e busco ansioso encontrar  caminho: Francisco Neves, o jornalista do Pesqueira Notícias e dono do melhor museu que já vi no interior de Pernambuco.
O que fazer para tirar do esquecimento o “homem austero, simples, honrado e inteligente” que “aqui aportou não sei como nem quando, cuidando da Usina Elétrica e instalando telefone de manivela, feito, acredito, quase pioneiro no Estado” – nas palavras de Jarival. Esse depoimento é uma espécie de atenuante para se entender por que Seu Queiroz é desconhecido das gerações mais novas. Se o articulista não sabia quando nem como o criador da Companhia Telefônica de Pesqueira lá chegou, o que dizer dos que vieram  na segunda metade do século XX? Por isso sirvo-me do Pesqueira Notícias e da generosidade de Francisco Neves para pedir a ajuda dos mais velhos que podem tirar da memória cenas da passagem de Seu Queiroz e dar à cidade mais esse patrimônio cultural, entre tantos criados pelos seus filhos notáveis no jornalismo, na literatura, na atividade pública.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Festa de Santa Águeda 1891/1892

Marcelo O. do Nascimento
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O Jornal do Recife, em sua edição de 6 de dezembro de 1891, publicou os noiteiros eleitos para participarem da festa de Santa Águeda daquele ano, a começar no dia 29 de dezembro e a terminar a 6 de janeiro de 1892. Pelo que vemos, a data da comemoração era outra. Nos dias atuais a festa de Santa Águeda termina no seu dia, em 5 de fevereiro.  O dia 6 de janeiro era, no princípio, reservado a N. Sra. Mãe dos Homens. Houve, assim, em algum momento da história essa troca de datas.


A devoção a Santa Águeda foi trazida para Pesqueira em 1852 pelo Frei Caetano de Messina, quando deu início, com suas próprias mãos, à construção da nova igreja matriz de Pesqueira, que deveria substituir a pequena capela de N. Srª. Mãe dos Homens construída por Manuel José de Siqueira, fundador da cidade.

Segue a lista publicada pelo jornal (com grafia atualizada):

Primeira noite, os senhores:
João Luiz de Inojosa.
Manoel Felix de Arantes.
José Vitorino de Oliveira.
Vicente Amado.
João Florentino Cordeiro.

Segunda noite:
As moças solteiras da freguesia.

Terceira noite:
Os moços solteiros da freguesia.

Quarta noite:
Joaquim Cavalcanti de Albuquerque Filho.
Adolfo Bezerra Cavalcanti.
Manoel Porfírio Gomes Coimbra.
Araújo Irmãos [a firma]

Quinta noite:
Antonio Belchior Rodrigues de Abreu.
Dr. Francisco Caraciolo de Freitas.
Capitão Augusto Rodrigues de Freitas Caraciolo.
Dr. Manoel Xavier de Moraes Vasconcelos.

Sexta noite:
Tenente Coronel Honório Tenório de Carvalho Cavalcante. [da fazenda Catolé]
Capitão Carlos Frederico Xavier de Brito. [dono da Fábrica Peixe]
José Bezerra Cavalcante.
Antonio Ventura de Luz Loureiro.

Sétima noite:
José Afonso de Oliveira Melo.
Joaquim Cordeiro Wanderley.
Joaquim do Rego Maciel.
Capitão Isidoro Pereira Torres Galindo.

Oitava noite:
Sinésio & C. [firma]
Sebastião José Bezerra Cavalcante. [depois fundados da Gazeta de Pesqueira]
Coronel Augusto Magalhães da Silva Porto.

Última noite:
José do Rego Maciel.
Frederico de Almeida do Rego Maciel. [que em 1911 doou o relógio ao convento]
Tenente coronel Didier do Rego Maciel. [um dos maiores benfeitores da construção da matriz]
Vigário João Enéas Ferreira Campos.
Barão de Cimbres.

Pesqueira, 5 de fevereiro de 2015. 
Dia de Santa Águeda


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Alagoinha – Nossa Terra, Nossa História

Marcelo O. do Nascimento
A cidade de Alagoinha acaba de ganhar uma obra que muito engrandece a historiografia da região. Trata-se do livro Alagoinha: nossa terra, nossa história, do odontólogo escritor Erasmo Lumba de Oliveira com coautoria da pedagoga Lúcia de Fátima Inojosa. 
Fruto de décadas de pesquisa, o trabalho apresenta vários segmentos da história alagoinhense, das primeiras construções, passando pelas manifestações populares e pelas personalidades que marcaram seu dia-a-dia de outros tempos. Ele é estruturado em capítulos que abordam a geografia, a agropecuária, a religião, os povoados, dentre vários outros assuntos.

O que impressiona no livro, além de sua abrangência, é a riqueza de detalhes, como, por exemplo, no trecho em que os autores falam da história da antiga capelinha de Alagoinhas e da construção da atual matriz. A importância que se dá às minimidades é espantosa, o que poderia parecer insignificante não passou despercebido pela rica pesquisa, o que deu um colorido muito particular ao texto. 
É uma leitura empolgante e que vale muito a pena. Quem ganha com o livro é o povo de Alagoinha e região, que pode melhor conhecer e, assim, divulgar a sua história de forma embasada. Ganha também o pesquisador, que certamente conta agora com uma excelente obra de referência, um importante documento sobre o passado da bela e aconchegante “terra das pedras e das lajes”.



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I Bienal do Livro de Pesqueira: sua importância para a história local

Entre os dias 9 e 13 deste mês, realizou-se em Pesqueira a I Bienal do Livro da cidade. Como qualquer outra, a exemplo dos inúmeros que ocorrem pelo País, aconteceram palestras, lançamento de obras literárias e venda de livros de todos os tipos. Aproveitando o perfil desta página, vamos no ater ao aspecto historiográfico, área representada por três eventos inseridos neste todo.

O primeiro, ocorrido no dia 12, foi o lançamento do livro Como Capturar Lampião, do escritor, especializado no tema cangaço, Luiz Ruben Bonfim. A obra aborda, como é de se imaginar, ideias arquitetadas e sugestões de populares de como se fazer para prender o rei do cangaço. O autor apresenta uma série de documentos, cartas e notas de jornais baianos da época, tratando do interessante assunto. Apenas para que o leitor entenda o que pode encontrar nas páginas do livro, o Dário da Noite publicou uma das pitorescas sugestões: mandar um soldado vestido de padre para matar o cangaceiro, já um policial de Pernambuco sugeriu que enchessem a caatinga de “insetos mordedores”. Luiz Ruben, deu uma esclarecedora aula palestra sobre o tema e autografou exemplares.
No dia 13, Ana Lígia Lira apresentou sua obra mais recente, O Diário do Silêncio, que trata das aparições de Nossa Senhora ocorridas no sítio Guarda, perto da vila de Cimbres, em 1936. Apesar de ser um assunto, aparentemente, já muito discutido, a obra traz um grande diferencial, algo que até então nunca tinha sido abordado: a investigação histórica dos fatos e da posição tomada pela Igreja. Assim, a autora apresenta relatos, cartas e notas que tratam diretamente sobre o assunto. O livro é ilustrado com fotografias, inclusive, de alguns documentos originais, que o deixam mais convincente ainda. Enfim, é um livro importante e obrigatório para quem quer conhecer essa história, e, na mesma medida, primordial para que as aparições possam ser validadas.

Os lançamentos dos dois livros citados foram, inquestionavelmente, eventos que valorizam a I Bienal do Livro de Pesqueira, especialmente para a História, nossa área de maior interesse. Mas, elevando o evento, por completo, ao topo, no dia 11, aconteceu a participação do pessoal do Centro de Estudos de História Municipal – CEHM, órgão responsável por divulgar a história dos municípios pernambucanos e por materializar inúmeras obras de historiadores desta localidade. Creio que seja desnecessário narrar os feitos do Centro, pois todo pesquisador da história do interior os conhece, sabe do ajuntamento de homens brilhantes que conseguiu fazer, como: Nelson Barbalho, Luís Wilson, José Aragão e tantos outros com cujas obras não conseguimos deixar de esbarrar em nossas leituras em busca de completar o complexo quebra-cabeças da história interiorana de pernambuco. Creio impossível um interessado neste assunto não conhecer, por exemplo, a assustadora (no melhor dos sentidos!) coleção Cronologia Pernambucana, dentre tantos outros títulos tão bem avaliados. Na ocasião da I Bienal, o CEHM apresentou especialmente o livro Impressões do Meu Cantos (CEHM, 2014), organizado pelo saudoso Gilvan de Almeida Maciel, que resgatou do antigo jornal a Gazeta de Pesqueira, textos de Anísio Galvão publicados entre 1905 e 1917, numa grande prova de humildade e dedicação à memória pesqueirense, trabalhando textos que não eram de sua própria autoria, mas que, conhecedor do “pesqueirismo” como era, tinha a consciência da importância desta obra. A participação do CEHM foi coroada com a apresentação do professor José Luiz Delgado, uma lenda viva da história municipal pernambucana, fundador do Centro, que, além de apresentar o seu oportuno livro A Voz das Ruas – Para a reforma dos políticos do Brasil (Bagaço, 2013), que trata de assunto tão atual, ainda deu uma verdadeira aula sobre a história de Pesqueira, a quem chamou de “solo sagrado”. Como resultado, ficou a promessa da realização do III Encontro de Historiadores a ser realizado em Pesqueira no ano de 2015. Foram dias que ficarão para a história!

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A Estrada [fragmento]


[…] por volta de 1800, Manuel José de Siqueira já tinha um cargo significativo em Cimbres, que, como única sede de município na região, funcionava como uma espécie de capital regional. E ainda era ativo no Moxotó, sendo capitão comandante daquela região subordinada à vila. Foi ele, como titular do posto em 1802, que ajudou o capitão Custódio Moreira dos Santos nos reparos do caminho das boiadas, que muitos anos depois serviu de guia para a atual rodovia BR-232 [BARBALHO, 1977, p. 84] e foi de fundamental importância para o desenvolvimento do interior de Pernambuco, ligando o litoral a Cabrobó, no Sertão. Em ofício enviado pela Junta Governativa da Capitania de Pernambuco a Siqueira naquele ano, demonstra que ele era capitão da ribeira do Moxotó e Ararobá. Era uma resposta ao comandante, que tinha mandado carta com informações de sua ajuda ao capitão Custódio nas obras da estrada real. O curioso documento, constante nos Documentos do Arquivo – Vols. IV e V e transcrito por Ulysses Lins de Albuquerque em Um Sertanejo e o Sertão entre as páginas 84 e 85 (Livraria José Olympio Editora, 2ª edição, 1976), apresenta-se da seguinte forma (com ortografia da época):
Fomos entregues da Carta de VM, de 9 do corrente, relativa ao negócio da factura das Estradas e Curraes da q. inspeção se acha por nós encarregado Custódio Moreira dos Santos, estendendo Nós aos justos motivos q. VM nos representa da grande seca que se experimenta nesses certoens esperamos de VM, que logo que o tempo for mais favorável ponha em execução a factura das Estradas e Curraes que se puderem adoptar em todo o Seu destrito na forma determinada pelo dito Inspetor, por ser um objecto muito importante ao R. I. Serviço, e ao público. Esperamos do zelo, e actividade e honra com que VM se deve empregar nas funçoens do seu Posto assim o execute para deste modo termos occazions de o louvar. – D. Ge. a VM. R. e 15 de Sbro. De 1802. – Pedro Sheverim. Men. X.er Carnº da Cunha – José Joaquim Nabuco de Aº – (ao) Com. e da Rib.a do Arobá, e Moxotó. [ALBUQUERQUE, 1976, pp. 84-85]

A carta enviada por Siqueira para o governo certamente era para se divulgar na capital, obtendo mais prestígio e força para o seu nome. O fato é que a então nova estrada abriu novos meios para o desenvolvimento da região, embora aquela importantíssima obra, bem como o seu principal executor, o capitão Custódio Moreira dos Santos, estejam hoje inteiramente esquecidos.

Observações:
O presente texto é um fragmento do livro inédito “Pesqueira de 1800”. Como tal, contém trechos suprimidos e resumidos.
Quando da publicação em papel, ele poderá sofrer alterações causando discrepâncias com a versão ora apresentada.


Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Casamentos em Jenipapo – parte 3 [fragmento]


O terceiro casamento, de Francisco Xavier Paes de Melo Barreto com Ana Vitória (filha do capitão-mor Coelho), mais tarde resultaria em brigas, desavenças e tragédias na família, mas ocorreu em 1814 com muita festa, talvez a maior que já se viu por essas paragens, conforme descreve Nelson Barbalho:
Ao que se diz, o casamento de FRANCISCO XAVIER PAIS DE MELO BARRETO com ANA VITÓRIA COELHO DOS SANTOS era festa de três dias de duração, realizada no Solar de Jenipapo e movimentada por centenas de pessoas das mais diferentes categorias sociais, com bebidas finas importadas da Europa, comidas variadas e em tamanha quantidade de causar espanto entre os convivas menos avisados. O capitão-mor SANTOS COELHO, satisfeitíssimo com o casamento da “menina caçula” com um moço fidalgo de alta linhagem, não olhava despesas efetivadas com o notável acontecimento social de todo o Agreste e Sertão da Capitania de Pernambuco. [BARBALHO, 1983, p. 156] (grifos do autor)
Para Barbalho, tal casamento ocorreu em 1814, provavelmente no mês de maio. Ele não cita fonte, mas é bem provável, pois esse sempre foi o tradicional “mês das noivas”. Também não encontro a fonte que o autor usou para detalhar a festa de casamento, mas, sobre o ano de 1814, é bem provável que esteja correto. O livro de matrimônios mais antigo que restou na paróquia de Cimbres é de 1816 e nele não consta o registro do casamento. E nem poderia, pois a filha mais velha do casal Xavier e Ana Vitória, a menina Teresa Sofia, tinha 15 anos em 1830 [MACIEL, 1980, p. 174], tendo nascido, portanto, em 1815, antes, evidente, do fato ter ocorrido.
Deste enlace, nasceu Francisco Xavier Paes Barreto, que, mais tarde, se tornaria o conselheiro Paes Barreto, juiz, comandante da Marinha do Brasil durante o Segundo Reinado, ministro das relações exteriores e senador do Império.
Observações:
O presente texto é um fragmento do livro inédito “Pesqueira de 1800”. Como tal, contém trechos suprimidos e resumidos.
Quando da publicação em papel, ele poderá sofrer alterações causando discrepâncias com a versão ora apresentada.


Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Pesqueira perde Gilvan Maciel

Marcelo O. do Nascimento


Pesqueira perdeu, no dia 6  deste mês, o último de seus grandes historiadores. Para a cidade, verdadeiramente uma era é encerrada, essa é a maior perda que a historiografia local poderia sofrer.

Acadêmico da área de medicina veterinária, Gilvan Maciel ganhou grande destaque neste campo, mas era um aficionado pela história de Pesqueira, assim como foi o seu pai, José de Almeida Maciel. Inclusive, ele foi responsável pela organização e publicação de inúmeros  de seus artigos, que foram compilados nos livros Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, Ruas de Pesqueira e Toponímia Pernambucana.

Além de ser o principal responsável pela vinda à tona da produção intelectual do pai, Gilvan produziu material de grande qualidade na mesma área, entre eles estão as interessantíssimas notas inclusas no Livro da Criação da Vila de Cimbres e também as Crônicas da Pátria Pesqueirense. Recentemente ele foi o organizador do livro Patronos da Academia Pesqueirense de Letras e Artes e estava organizando mais dois trabalhos, estes sobre os pesqueirenses Anísio Galvão e Eliseu Araújo.

Gilvan Maciel era o maior conhecedor vivo da história de Pesqueira, era da mesma estirpe literária de Nelson Barbalho, Cazuzinha Maciel e Luís Wilson. Com sua partida, nós, desta nova geração de pesquisadores, ficamos sem nossa maior referência, mas suas lições continuarão eternamente, seus escritos permanecerão nos ensinando, sempre.


Descanse em paz, professor.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.
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