Categoria: Fatos históricos

Os cem anos da Diocese de Pesqueira

Marcelo O. do Nascimento

Em 1917, em visita a Pesqueira, Dom Sebastião Leme, então arcebispo de Olinda, trazia a notícia de que a cidade seria sede de uma diocese. Sua excelência foi recebido pela banda do município e pelos atiradores do Tiro de Guerra de Pesqueira e Alagoinha com os festejos e o entusiasmo que a ocasião exigia. Nos dias que passou na cidade, houve muita movimentação pelas ruas até tarde nas noites iluminadas pela maravilhosa luz elétrica, uma refinada e rara tecnologia na época. Continue lendo

Os 100 Anos da Chegada de Dr. Lídio Paraíba

Dr. Lídio Paraíba

Dr. Lídio Paraíba nasceu em Uruguaiana-RS em 5 de junho e 1890. Formado em medicina no Rio de Janeiro em 1911, chegou a Pesqueira no ano seguinte. Em resumo, em 2012 completa-se 100 anos de sua chegada à terra que não o viu nascer, mas que ele adotou como sua talvez como nenhum outro cidadão jamais chegaria a fazer.

A Pesqueira de 1912 era uma progressista povoação. Contava já com as fábricas Peixe e Rosa, duas indústrias bastante desenvolvidas, e um comércio famoso em toda a região. Àquela altura a cidade já contava também com a Casa José Araújo (fundada em 1890) e com o Bazar Pesqueirense (depois O Barateiro) do pai seu Tito Rego, dentre outros estabelecimentos. Embora um centro importante , tanto comercial como industrial (já contava inclusive com uma linha de bondes!), a cidade era ainda um lugar de urbanismo precário, com ruas de terra e sem energia elétrica (que chegaria em 24/12/1913). A saúde pública praticamente não existia, tamanha a ausência de estrutura, não havia hospital ou outro centro de saúde com competência suficiente. Foi esse o cenário que Dr. Lídio encontrou ao descer de um dos vagões da Great Western, atendendo o convite feito pelo farmacêutico Xavier de Andrada.
Dr. Lídio atendeu seus primeiro pacientes na Farmácia Santos, de Manoel Cristóvão dos Santos, depois se instalou no então Largo da Matriz (hoje Praça Dom José Lopes) e por último na antiga rua 15 de Novembro (hoje rua Dr. Lídio Paraíba, em sua homenagem), onde por fim fixou seu consultório.
Para dr. Lídio gente era gente e ponto final: rico, pobre, preto, branco, jovem, velho, cristão ou ateu. Conta-se que ele nunca se negou a atender qualquer um que fosse, inclusive sem se importar com pagamento. Ele não parava de passar pelas ruas empoeiradas de Pesqueira no seu automóvel guiado pelo motorista Pedro Miro, sempre a caminho de atender algum pesqueirense enfermo, em qualquer bairro, da Pitanga ao Prado, a qualquer horário do dia ou da noite.

Ele foi o médico de Pesqueira durante meio século, dedicou quase toda sua vida a ela e a seus cidadãos. Foram incontáveis os pesqueirenses que passaram por suas competentes mãos. Foi em Pesqueira também que ele realizou um grande feito, um sonho imenso que se torno realidade: a construção do hospital que hoje leva seu nome, do qual foi diretor por 20 anos.
Essa pequena nota, insignificante em tamanho, mas realmente sincera, dedico a um homem que dedicou uma vida inteira a um lugar, que o amou despretensiosamente como se fosse dele. Naquele 17 de fevereiro de 1963 Pesqueira teve com certeza um pedaço seu enterrado.
Homenagem maior lhe fez a historiadora Eulina Monteiro Maciel, de Jaboatão dos Guararapes, com o livro “Tributo ao Médico Dr. Lídio Parahyba – Uma voz na Assembleia Legislativa”, obra que brevemente terá lançamento em Pesqueira. Uma jaboatanense fez então o que nenhum pesqueirense foi capaz de fazer. No entanto, o que importa de fato é que Dr. Lídio não foi esquecido.
Pesqueira, 31/12/2012.
Em memória de Dr. Lídio Paraíba.

Marcelo Oliveira do Nascimento.
Fontes:
WILSON, Luís. Ararobá Lendária e Eterna. CEPE/Pref. De Pesqueira. Recife: 1980.
SANTOS, Luiz Cristóvão dos. Doutor Lídio – O médico do Sertão. Matéria escrita para o Diário de Pernambuco por Luiz Cristóvão dos Santos. Data não identificada.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

A maior tragédia de Ararobá

Antônio dos Santos Coelho da Silva, fundador da fazenda Jenipapo, foi capitão-mor de Ararobá, o cargo militar mais importante daquela época. O português, que manteve-se no posto até sua morte em 1822, era um dos homens mais ricos de Pernambuco, dono de grande fortuna e poder. Na sua casa não havia varões, moças apenas. Essa série de caraterísticas atraía muitos homens em busca de crescimento social, econômico e político. Aliás, as terras onde hoje está a cidade de Pesqueira pertenceu primeiro a Santos Coelho, que as deu a Manuel José de Siqueira como dote pelo casamento de sua filha Clara Coelho dos Santos com ele. Vê-se claramente como esse enlace foi importante para Siqueira, fundamental para que ele se fixasse na região em lugar estratégico, o exato lugar onde ele ergueu a fazenda que mais tarde se tornaria sede da Vila de Cimbres.

Reconstituição da casa grande de Poço de Patos
Outro casamento importante saído da casa de Santos Coelho foi de sua filha Ana Vitória Coelho dos Santos com Francisco Xavier Paes de Melo Barreto. O casal foi viver na fazenda Poço de Patos, onde ergueram uma enorme casa em terra também recebida de Santos Coelho em forma de dote.
Os dois genros do capitão eram diferentes ao extremo. Siqueira era sertanejo da região chamada de Moxotó, rude violento e de pouca cultura. Era adepto de resolver tudo na violência, não conhecia o que era a Justiça, embora fosse homem do governo. Xavier era do litoral, tinha cultura e valorizava as Letras. Na residência construída em Poço de Patos deixou bem a sua marca de cultura e bom gosto. A casa tinha capela interna e biblioteca, ao redor da propriedade havia um muro com um portão de ferro bem trabalhado. Das 22 janelas, 17 eram vidraças finas trazidas de portugal, conforme nos conta José de Almeica Maciel (Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, 1980). A única coisa que os dois tinham em comum era a ambição pelo poder. Não se davam, eram inimigos declarados. Xavier era alvo constante das críticas do velho sertanejo Siqueira, que dizia que homens como aquele vinham para o sertão em busca apenas de vantagens, de tirar proveito das moças do interior. No entanto o próprio Siqueira não enxergava que ele também agia por puro interesse.
Quando da morte do capitão-mor Santos Coelho em 1822, deu-se início uma guerra entre os seus dois genros, que lutavam pela promoção de sargento-mor, patente que ambos detinham, para a de capitão-mor. Foram muitas emboscadas e surras entre os homens das duas fazendas, era Poço Pesqueiro contra Poço de Patos. As ameaças eram constantes, que sempre acabavam em sequências de pura violência, mesmo tendo sido os dois finalmente elevados à patente que tanto desejavam. O orgulho de ambos não os deixava dividir o título. Os jornais da época levavam a público essa guerra, que ficou conhecida em todo a província, inclusive na capital. Foi uma história de muitos capítulos e de final trágico. Como o foco desta matéria é apenas um destes capítulos, vamos a ele.
Siqueira, apesar de ter Xavier como seu maior inimigo, nutria muita simpatia e apreço pela sua cunhada Ana Vitória. No entanto acabou sendo o principal acusado da maior tragédia havida na familia. Em 27 de dezembro de 1829, na boca da noite, dona Ana Vitória ouve uma voz conhecida chamar à porta da fazenda Poço de Patos. Ao abrí-la, é recebida por vários tiros e cai ferida. Os homens da fazenda saem ao encalço dos atiradores, mas estes fogem e não são encontrados. 
Nunca ficou comprovado que Siqueira tenha sido o mandante do crime, mas é certo que os tiros eram destinados a Xavier e não à sua esposa. Dona Ana Vitória, dedicada mãe e esposa, falece em 10 de janeiro de 1830, vítima dos ferimentos. Foi sepultada na capela da fazenda Jenipapo, deixando 10 filhos órfãos, entre eles Francisco Xavier Paes Barreto com 9 anos de idade. Este mais tarde se tornaria o conhecido e respeitado Conselheiro Paes Barreto
Depois da tragédia Xavier foi para Recife levando os filhos. Abatido com o ocorrido, debilitado por problemas de saúde, viu ainda a paz que já não tinha ser abalada ainda mais por ações judiciais que ameaçavam o sequestro de seus bens. Sua saúde foi então minguando cada vez mais. E os inimigos não lhe davam trégua, diz José de Almeida Maciel (em obra já citada): “O propósito de fustigá-lo, quando não de abatê-lo impiedosamente, dir-se-ia preocupação única  entre os seus desafetos de Pesqueira.”

Para atender uma determinação judicial Xavier precisou voltar para o interior, fixando-se no Brejo, onde na época estavam residindo os ouvidores da Comarca do Sertão. Eles acabaram determinado um curador para seus filhos e também a abertura de seu inventário, que ocorreu ali em 02 de dezembro de 1830, o mesmo dia no qual recebeu a notícia da morte de sua sogra, dona Tereza de Jesus Leite. Não pôde comparecer ao sepultamento em Jenipapo devido a mais um agravo de sua frágil saúde. A vida lhe aplicava castigo em cima de castigo, até que sua luta chegou ao fim no dia 18 de dezembro de 1830, quando seu corpo (e mente) não aguentou mais os sofrimentos aos quais fora submetido. 
Àquela altura Siqueira já tinha se recolhido em Poço Pesqueiro. Já em idade avançada e abatido pelo ocorrido com a cunhada que tanto estimava, passou a ter uma vida de tristeza. Diziam alguns que sua reclusão se deu por remorso, mas de fato nunca se conseguiu comprovar que ele fosse o mandante do crime. A questão ficara apenas na acusação. Em 19 de outubro de 1831 o velho capitão falece em sua fazenda, sendo sepultado na capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens.

Encerrava-se a maior disputa que se tem notícia ter ocorrido em terras cimbrenses. Siqueira e Xavier fizeram história na política, fizeram riqueza, ganharam respeito e muito prestígio em sua época, mas findaram penosamente.

Por Oliveira do Nascimento

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Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.
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