Autor: Marcelo Oliveira Nascimento

Marcelo Oliveira Nascimento é historiador, formado em Sistemas de Informação com especialização em História e Antropologia. É sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Pesqueira e autor de vários livros sobre a história de Pesqueira e Cimbres. É administrador do Pesqueira Histórica desde 2010, que conta com site, podcast e um canal no YouTube, plataformas todas voltadas à divulgação da história local.

Cimbres: 250 Anos

Nos primórdios, a região onde hoje fica a vila de Cimbres e a cidade de Pesqueira era ocupada pela tribo chamada de Ararobá. Depois sua ocupação passou para a tribo Xukuru. Dos Ararobás ficou apenas o nome da serra. Nos arredores viviam os Paratiós, de outra tribo. Estes foram os primeiros donos das terras nas quais vivemos hoje.
Em 1654 João Fernandes Vieira ganhou da Coroa portuguesa um sem mundo de terras, inclusive as ocupadas pelas tribos citadas. Em 1666 mandou seu feitor Manuel Caldeira ocupá-las1. Era o início da entrada da população branca na região. Na mesma época, ainda na segunda metade do século XVII, o padre oratoriano João Duarte do Sacramento fundou a missão de Ararobá junto aos Xukurus e deu o nome de Monte Alegre ao lugar que, progredindo rápido, em 1692 virou sede de freguesia2. No ano anterior, comprovadamente, Monte Alegre era também sede de capitania3 e, em 1762, alcançou o ápice da política administrativa sendo elevada a vila e sede de município, que passou então a ser chamado de Cimbres. Foi um 3 de abril que ficou na história. O ouvidor de Alagoas, dr. Manuel Gouveia Alvares, foi o encarregado de sua instalação. Dias antes foi fixado o edital num mastro convocando todos os moradores para a solenidade. Hoje, graças ao heroísmo de José Florêncio Neto, que o salvou de uma enchente no arquivo da Prefeitura, temos o Livro da Criação da Vila de Cimbres, onde foram registados importantes documentos sobre a vila com datas desde 1755 até 1867, inclusive a ata de instalação. É uma coleção de fontes primárias de pesquisa de valor tão grande que não conseguimos medir. Nela consta inclusive detalhes sobre a construção da casa de câmara, cadeia e ouvidoria, preciosa descrição.
Cimbres durante muitos anos foi o único lugar organizadamente habitado da região, o único centro político do Sertão, terra de autoridades políticas e militares. No entanto a força de um lugarejo três léguas abaixo da serra do Ararobá foi maior. Essa força nasceu da ambição de um homem, um autêntico sertanejo da ribeira do Moxotó: Manuel José de Siqueira. Sua fazenda em 1836 já tinha progredido tanto que acabou arrastando a sede do município de Cimbres serra abaixo. Foi naquele ano que a antiga vila começou a trilhar o caminho rumo ao esquecimento. Da época áurea restou apenas a igreja de Nossa Senhora das Montanhas, que funciona plenamente desde sua construção, mesmo depois da criação da freguesia de Santa Águeda em 1870, esta na então vila de Pesqueira. Como símbolo da política e do poder restou o acanhado prédio do Senado, relíquia da época da colônia, hoje em mau estado, em nada lembrando o auge da sua importância.
Atualmente Cimbres está quieta, num silêncio que apenas as coisas mortas têm. Sua história encontra-se esquecida pela maioria. Para estes o lugar não passa de um ponto no caminho entre Pesqueira e o santuário do sítio Guarda: fato triste e lamentável. Mesmo assim sua arquitetura continua resistindo ao tempo, muitas casinhas dos séculos XVIII e XIX ainda resistem de pé, no entanto passando despercebidas.
Hoje contamos 250 anos desde aquele 3 de abril de 1762. São dois séculos e meio do município de Cimbres, são dois séculos e meio do município de Pesqueira, que é na verdade o de Cimbres que em 1836 mudou de endereço e em 1913 mudou de nome4. Hoje devia haver uma grande comemoração, mas creio que será um dia como outro qualquer. Creio também que a maior parte das pessoas nem saibam desse 3 de abril, pois é data que não consta no calendário do atual município.
Seja como for, Cimbres, eu te reverencio.
Por Oliveira do Nascimento
3 de abril de 2012, aniversário de 250 anos da vila e município de Cimbres.



Fontes:
  1.  BARBALHO, Nelson. Caboclos do Urubá. FIAM/CEHM. Recife: 1977.
  2. A freguesia existente em Monte Alegre (depois Cimbres) não foi criada em 1762 como afirma Alfredo Leite Cavalcanti em sua obra (brilhante por sinal) História de Garanhuns – volume 1.
  3. Esta é outra informação divergente do que conta Alfredo Leite Cavalcanti na obra já citada.
  4. MACIEL, José de Almeida. Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres. FIAM/CEHM. Recife, 1980.


Notas:
  • Sobre a data de criação e localização da sede da Capitania de Ararobá, bem como sobre a criação da freguesia, trataremos em momento oportuno.



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Fábrica Rosa no Começo do Século XX

Mais uma foto do começo do século XX. Na imagem, retirada do Álbum de Pernambuco (editado em 1913), vemos a Fábrica Rosa em seus primeiros anos. A data da foto na verdade é anterior à publicação, provavelmente de 1909.
Fábrica Rosa. Foto provavelmente de 1909.
Autor desconhecido. Cedida por José Florêncio Neto
Os indícios sobre a data são os seguintes:
  1. Os trilhos do bonde de burros que ligava a estação ferroviária à Fábrica Peixe não aparece na foto. Como é sabido, em 1911 os trilhos já estavam instalados e a linha funcionando plenamente;
  2. A reforma feita na fachada da fábrica também não aparece. Segundo gravação na própria fachada, essa obra é de 1910 (ver nas fotos recentes);
  3. No mesmo álbum de onde a foto foi retirada consta uma outra, da Fábrica Peixe (sem os trilhos do bonde na frente), na qual aparece a igreja do convento dos Franciscanos ainda sem o relógio na torre. A igreja é de 1908 e o relógio foi instalado em 1911 (ver matéria Fábrica Peixe no Começo do Século XX).
A construção da Rosa é de 1906 (WILSON, 1980), portanto a imagem é uma das primeiras da fábrica fundada por Tonhé Didier. Na verdade talvez seja a única que mostre a fachada original.
Fábrica Rosa em 1928
Foto: Severiano Jatobá Neto
A reforma citada acrescentou uma porta nova, que hoje serve de entrada para setores da prefeitura, e modificou a altura da platibanda frontal em um longo trecho. É importante observar também que foi acrescentado no fim da construção uma nova dependência, que hoje serve de sede da APLA – Academia Pesqueirense de Letras e Artes. Não sei se foi construída em 1910, mas é certo que em 1928 já estava ali, como pode ser visto na foto correspondente (na extrema esquerda da foto, ao longe). A chaminé, que não aparece na foto mais antiga, já aparece na de 1928 (retirada do livro Pesqueira Secular, 1980), bem como os trilhos do bonde.
Fábrica Rosa em 2011
Foto: Oliveira do Nascimento
Assim como na matéria Fábrica Peixe no Começo do Século XX, publicada em 5 de fevereiro deste ano, a imagem em foco não é de boa qualidade mesmo no próprio álbum, no entanto seu valor histórico é inestimável e ajuda a montar mais uma pequena parte do quebra-cabeça da história de Pesqueira.

Por Oliveira do Nascimento.

 OBS: CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR.

Fontes:
  1. WILSON, Luis. Ararobá, Lendária e Eterna. Pesqueira: Prefeitura Municipal, 1980.
  2. BURGOS, Nivaldo et al. Pesqueira Secular – Crônicas da Velha Cidade. Prefeitura de Pesqueira, 1980.
  3. Álbum de Pernambuco. 1913


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O Convento de Pesqueira

Marcelo O. do Nascimento

Entre outubro 1901 e abril 1902, Dom Luiz Raimundo da Silva Britto, bispo de Olinda, a única diocese de Pernambuco na época (a diocese de Floresta só apareceria em 1910), percorreu o interior do Estado em visita pastoral. Acompanhado por 4 religiosos franciscanos, cedidos pelo padre provincial da Bahia, Frei Hipólito Zurek, visitou nada menos que 40 freguesias.

Inauguração da gruta em 1925
Foto: autor desconhecido (Álbum de Pesqueira, 1923-1925)
Dom Luiz, querendo deixar registrada sua gratidão ao povo, pediu a Frei Hipólito Zurek que fundasse no sertão um novo convento. Dentre todos os lugares conhecidos, a dúvida recaiu sobre Pesqueira e Triunfo. No entanto, pelo entusiamo, bom acolhimento aos religiosos e disposição do seu povo, Pesqueira fora o lugar escolhido. Rapidamente a quantia de 12:000$000 foi levantada e a 1 de agosto de 1902, Dom Luiz sentou a pedra fundamental da obra.

Em 2 de fevereiro de 1905, Dom Luiz de Brito, agora na companhia de Frei Hipólito, benzeu solenemente o convento, que teve como primeiro superior Frei Adalberto, auxiliado por Frei Roberto e Frei Bernardino. Quando inaugurado, contava apenas com o claustro e as dependências inerentes à vida dos frades, mas, evidentemente, uma igreja era fundamental e necessária. Assim, um ano depois, em 1906, deu-se início à construção do templo. O auxílio da população foi tão grande para essa nova obra que em 8 de dezembro do mesmo ano a torre já estava erguida. Em 24 de maio de 1908, em sua última visita a Pesqueira, enfim Dom Luiz inaugura a igreja.

O relógio da torre foi instalado mais tarde, em 1911, doação de Frederico Alves do Rego Maciel (1), um grande benfeitor pesqueirense. Naquela época a igreja de Santa Águeda já existia, funcionava desde 1889, mas suas torres não tinham relógios, que só foram instalados nos anos 50. A capelinha de Nossa Senhora Mãe dos Homens ainda não tinha torre e nunca teve relógio. Assim, por mais de 40 anos, o relógio do convento foi o único relógio público de Pesqueira.
Inauguração da igreja do convento em 1908
Foto: autor desconhecido (cedida por Pe. Eduardo Valenca)
Outra característica marcante do convento é a gruta que fica em frente a igreja, dividindo a escadaria. Ela foi inaugurada em 31 de maio de 1925, obra de Frei Bonifácio, completando definitivamente o conjunto arquitetônico de estilo alemão.
O presente de Dom Luís e Frei Hipólito, faz parte da paisagem de Pesqueira há mais de 100 anos, tendo chegado à cidade antes mesmo da diocese. Durante esse tempo tem sido marcante para a cidade, pela assistência religiosa e pela caridade. Sede da paróquia de Nossa Senhora da Conceição desde 1960, cativa pessoas de todos os lugares.
É pena os 100 anos do convento ter passado em branco. Em 2005 devíamos ter prestado as homenagens merecidas a seus fundadores, devíamos ter fixado uma marca em algum lugar visível ao público (2). A ação devia ter partido do poder público e da comunidade, mas ficamos todos em silêncio.

Fontes:
  1. PACHÊCO, Felipe Condurú. D. Luís de Britto – O primeiro arcebispo de Olinda. Departamento de Imprensa Nacional. 1957.
  2. Álbum de Pesqueira, 1923-1925. Administração do Major Cândido de Britto.
  3. WILSON, Luís. Ararobá, Lendária e Eterna. Pesqueira: Prefeitura Municipal. 1980.




NOTAS:

  1. Matéria atualizada em 01/05/2012: a doação do relógio não foi feita pela Comendador José Didier, como constava antes no texto. Este foi um dos mais religiosos homens que Pesqueira já viu;
  2. Matéria atualizada em 14/03/12: o convento completou 100 anos em 2005 e não em 2002, como constava antes no texto.
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Fábrica Peixe no Começo do Século XX

Mais uma imagem antiga de Pesqueira. Essa foi retirada do Álbum de Pernambuco, publicado em 1913 (cedido gentilmente por José Florêncio Neto, do Instituto Histórico de Pesqueira). No entanto, a foto é anterior. Provavelmente ela data entre maio de 1908 e, no máximo, algum mês de 1910. Os índicios são os seguintes:
  1. A igreja do Convento dos Franciscanos foi inaugurada em 24 de maio de 1908 (v. Álbum de Pesqueira, 1925) e a mesma já aparece na foto;
  2. O relógio da torre da igreja foi instalado em 1911 (v. Ararobá, Lendária e Eterna. Pesqueira, 1980) e o mesmo NÃO aparece na foto;
  3. Os trilhos do bonde de burros que ligavam a Fábrica Peixe à estação ferroviária tiveram sua última fase de implantação em 1911 (v. Ararobá, Lendária e Eterna…) e os mesmos NÃO aparecem na foto;
  4. No mesmo álbum, fonte desta fotografia, aparece uma foto da Fábrica Rosa tirada antes de 1910, já que a reforma feita em sua fachada naquele ano ainda não aparece.
Clique na imagem para ampliar
Sobre o tão falado bonde tracionado por burros, Luís Wilson (em Ararobá, Lendária e Eterna, obra já citada) dá a entender que a linha foi instalada depois de 1908 e que sua última fase de implantação foi concluída em 07 de maio de 1911, com a inauguração do bonde de passageiros. Não encontro informações sobre o primeiro ano de funcionamento, se foi em 1911 ou antes. De qualquer forma, na data citada seu funcionamento já era pleno.
Apenas por curiosidade, o chalé vizinho à fábrica foi residência do casal Carlos e Maria Brito a partir de 1897. Foi alí que começara a fabricação dos famosos doces de goiaba por dona Yayá e dona Dina Doceira.
A imagem tem pouca qualidade mesmo no Álbum, infelizmente. Não tenho notícias da original. Suponho que o fotógrafo tenha sido da editora, em Recife, e não de Pesqueira, o que diminui as possibilidades de acesso à mesma. Seja como for, fica o registro histórico.
Pesqueira, 05 de fevereiro de 2012, dia de Santa Águeda.

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A História de Cordel de José Evangelista

Confesso que não conhecia o trabalho do cordelista pesqueirense José Evangelista. Apenas recentemente fiquei sabendo de sua obra, que é vasta e aborda temas variados. No entanto, há uma edição em especial que fala da história de Pesqueira. A novidade é o formato em si, nossa história contada por outro meio e com outra linguagem. O título é Pesqueira Terra da Graça, Terra do Doce e da Renda.
Capa da obra
Evidentemente não podemos dar detalhes diretos do texto, já que se trata de um trabalho de natureza artística – que deve ser lido e apreciado –, mas podemos dizer que José Evangelista conta histórias que cobrem vários períodos: a fundação de Cimbres, a fundação da fazenda Poço do Pesqueiro, a instalação da diocese, etc. As personalidades citadas também são muitas e vão de Manuel José de Siqueira e Dom José Lopes a nomes mais recentes como Luciano Veloso, Paulo Diniz e Chicão Xukuru. Há ainda nomes populares como João Catrevage e outros. E não só personalidades, mas também estão presentes na obra a natureza, a paisagem e os movimentos populares.
        
Para quem acha que o cordel foi esquecido, está aí João Evangelista para provar, com competência, o contrário. Além do contato com essa forma de arte, o que não tem preço, esta é a chance de ver a história de Pesqueira de outra forma, vê-la pelos olhos de um artista.
Oliveira do Nascimento
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Lançado o primeiro volume do Pesqueira Histórica

O site Pesqueira Histórica acaba de lançar um livro com a compilação das matérias publicadas entre 2010 e 2011. O texto foi adaptado para o formato impresso, mas não sofreu alterações radicais. Várias notas de rodapé foram incluídas com a intenção de esclarecer algumas dúvidas que permaneceram nas publicações originais.
Este é um marco na história do site e marca sua inclusão na área das publicações tradicionais.
O livro pode ser comprado pelo site do Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br) ou pelo e-mail vendas@pesqueirahistorica.com. Comprando direto conosco e sendo você de Pesqueira, podemos entregar o livro pessoalmente, assim você economiza o frete.
Para compra pelo Clube de Autores clique no botão abaixo, para comprar direto conosco envie um e-mail para vendas@pesqueirahistorica.com 
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O Jeito Luiz Neves de Fazer História

Nessa busca incessante por material sobre a história de Pesqueira descobri os mais diversos tesouros, de todos os tipos. Há aqueles livros consagrados, que todo mundo fala, comenta, indispensáveis para qualquer um que queira se inteirar do assunto. Talvez os maiores exemplos destas obras sejam Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, de seu Cazuzinha Maciel, e Ararobá, Lendária e Eterna, do Dr. Luis Wilson. De fato são dois livros dos quais não se pode abrir mão quando o assunto for a história local.
Foto: Pequeira Notícias
Os historiadores, mesmo os que historiam apenas por amor à terra, como é o caso dos dois mestres citados, se apegam demais a documentos e outras fontes formais, o que é natural e evidentemente necessário. Então se tem um texto sério, apurado, confiável, de qualidade histórica verdadeira. Mas ainda há aquele escritor que “brinca” de escrever, que observa os arredores, o que se passa nos bares, nas feiras, nas calçadas. Para alguns, a experiência de ler um texto como esse é como viajar no tempo e parar numa época não vivida, tamanha a vivacidade da história contada. Parece que era a gente que estava ali escorado na parede da venda enquanto um “seu Zé” qualquer entrava para comprar uma garrafa de cajuína ou um pacote de mata-fome. Dá aquela sensação gostosa de ver pela janela de casa as pessoas passando na rua, se cumprimentando com um “boa tarde” enquanto o Sol se prepara para descer em repouso depois de iluminar o dia. Esse é o sentimento que tive quando conheci a obra de Luiz Neves. 
Meu primeiro contato com suas crônicas foi com Pesqueira – Evocação Ano 100, que comprei assim, sem querer, e não consegui parar de ler até alcançar a última linha da última página. A parte sobre os tipos populares é particularmente impressionante, um trabalho sem par, carregado de extrema honestidade para com os personagens que trata. Estes são na verdade pessoas reais, cidadãos de uma Pesqueira de outrora, que o tempo, cruel como só ele, tem insistido  em querer apagar. Mas Luiz Neves, generoso conosco, conseguiu guardar um precioso pedacinho deles ali, dentro daquelas cento e tantas páginas. E eles estão sempre disponíveis a visitas, quantas vezes a gente quiser, basta abrir o livro em um dos capítulos onde eles “vivem”. É tudo muito real: o modo de vida, o jeito de falar, de se comportar. É um registro sem máscaras, sem mistérios ou adereços, que mostra o povo do jeito que o povo é.
Ele era um contista e tanto e muitas de suas crônicas são assim vestidas. Elas provocam emoções de todos os tipos. Entre outras, nós rimos além da conta com a história de Estambo de Arubú, que “escapou fedendo” de um de seus pitorescos trabalhos e nos surpreendemos demais com o fenomenal Maro Doido e suas “contanças” nas ruas de Pesqueira. Isso sem falar no episódio comovente de seu desaparecimento na tentativa de lutar pelo País na 2ª Grande Guerra. Só lendo para entender o que estou falando. São histórias tão bem contadas que conseguimos montar em nossas mentes seus cenários com facilidade. Elas fluem tão naturalmente que nos levam de volta a caminhar pelas ruas de terra da cidade, hoje desaparecidas, cobertas pelo asfalto da modernidade.
Nesta obra há ainda sua frase genial, a frase por qual eu vinha procurando desde o começo da minha existência como pesqueirista, a frase que me causa inveja por não ter tido a sensibilidade suficiente para criar: “Na realidade, Pesqueira é, numa síntese, o meu verdadeiro Brasil!”. 
Ainda achando pouco, ele deixa como presente para as futuras gerações, para os que estarão comemorando os duzentos anos de Pesqueira, uma carta tão emocionada que duvido que os olhos de um verdadeiro pesqueirense não queiram se banhar em lágrimas. 
Luiz Neves teve para Pesqueira uma importância impossível de ser descrita nestas tão poucas linhas, e não só no campo da Literatura,  já que foi também um respeitado homem da política. Mas reverencio sua memória neste momento especialmente em nome de pessoas simples que nenhum outro escritor parou para enxergar e dar a merecida importância. Ele foi um dos poucos a perceber que a história não é feita só de nobreza, de títulos e patentes. Graças a ele, homens sem nome se tornaram imortais.
Oliveira do Nascimento.
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Feira de Pesqueira e Capela em Velha Fotografia

Eis uma grande e importante descoberta para nossa história. Trata-se de uma das mais antigas imagens de Pesqueira, na qual aparece a feira no largo da matriz. Provavelmente esta é sua foto mais antiga e consta no Álbum de Pernambuco, que foi publicado em 1913. A mesma foi digitalizada por mim do exemplar original cedido gentilmente por José Florêncio Neto.

Feira de Pesqueira em antiga fotografia. Clicar na imagem para ampliar.

A data da imagem é provavelmente 1908 ou 1909. As evidências para esta afirmação são as seguintes:
  1. No mesmo álbum citado, consta uma fotografia da Fábrica Rosa, de quando a reforma feita na fachada em 1910 ainda não havia ocorrido;
  2. Consta ainda uma outra fotografia, esta da Fábrica Peixe, onde se vê o convento já construído (o que seu deu em 1908) e NÃO se vê os trilhos do bonde na rua, transporte que teve sua ultima fase de implantação em 1911, quando passou a transportar também passageiros (ver WILSON, Luís. Ararobá, Lendária e Eterna. Pesqueira, 1980);
  3. Na própria foto da feira NÃO se vê os trilhos do bonde, que passavam ao lado da igreja matriz.

Evidentemente cinema O Ideal de seu Tito Rego ainda não existia, pois o mesmo foi aberto em 1914. Na foto pode-se ver o prédio original, sem a reforma feita por ele (na rua de baixo, de quatro portas escuras, na esquina).

É interessante observar que a capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, naquela época, ainda não havia passado pela reforma, que só ocorreria em 1919/1920. Ela aparece à direita do observador, no fim da rua. Pode-se ver logo acima da cumeeira do seu telhado as duas janelas do sobrado que, com a mesma reforma, tornou-se a sede da Diocese de Pesqueira. Estas duas janelas ainda hoje existem na construção. Embora  a igrejinha apareça em grande parte encoberta, dá para ter uma visão parcial do oitão no qual ficava o seu cemitério interno, o primeiro de Pesqueira. Dá para perceber também que, como falava o Pe. Frederico Maciel (ver Ubassagas, 1982), ela avançava no alinhamento da rua. Essa informação já havia me sido confirmada pelo Pe. Eduardo Valença, que fez um esboço demonstrando a situação.

Foto posterior à reforma. Clique para ampliar.

Por esta fotografia, o Pe. Eduardo Valença também constatou que a altura da capela ainda é a mesma da original. Realmente, olhando-se foto posterior, da mesma perspectiva, percebe-se que o telhado alcança a mesma altura que alcançava antes da reforma feita por Dom José Lopes. Fica fácil perceber se compararmos o telhado da capela e as janelas do sobrado nas duas fotos. Esse fato pode confirmar também que a obra do bispo foi mesmo uma reforma e não uma reconstrução, como falam alguns. As paredes que existem hoje devem ser ainda as originais e não outras construídas, tendo sido demolidas apenas as do cemitério lateral.
O original da foto é raríssimo. Até pouco tempo eu pessoalmente nem sabia que a mesma existia. A qualidade da impressão no Álbum de Pernambuco é péssima, sem a mínima definição. O acesso à fotografia original seria importantíssimo para remontar a história da capela, que só aparece em mais uma foto conhecida, sendo esta mais antiga ainda que a outra.
São achados como esse que me fazem continuar motivado a pesquisar e a divulgar meu material. Não perco as esperanças de que um dia venha a noticiar que encontramos a foto original e que enfim pudemos reconstituir a histórica capela da Fazenda Poço Pesqueiro.
Por Oliveira do Nascimento.

OBS: Para ampliar as imagens, clique nas mesmas.

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Comentário Sobre a Casa Grande | Por Pe. Eduardo Valença

Comentário escrito pelo Pe. Eduardo Valença a respeito da matéria Remontando a Fazenda Poço Pesqueiro

Uma indicação das datas das construções, ou pelo menos da seqüência delas, seria possível por meio de uma arqueologia das construções em si.  Qual das casas é em taipa? Meu pai falava de uma casa no centro construída em taipa que ninguém percebe por fora. Seria possível pelas seteiras que existiam nas edículas (hoje demolidas ou desfiguradas) dos sobrados geminados.

À esquerda a casa grande. À direita, do outro lado da rua, a senzala.

Curiosíssimo: surgirem sobrados geminados em pleno sertão, a infinita distância da capital.  Os pedreiros vieram de lá? Evidencia uma planta elaborada, uma intenção desde o alicerce, a escada comum a dois, como um prédio de apartamentos, isso numa fazenda!!! (não há uma rachadura neles!). Indica talvez o melhor terreno para se construir.  

Seria preciso examinar as empenas das casas de todo o arruado, uma a uma, para verificar qual foi construída primeiro, mas ninguém pode sair por ai descascando o reboco das casas particulares. E se foi a casa grande alguma casa do lado esquerdo da capela? O padrão de Jenipapo, fazenda mais antiga, é uma casa senhorial térrea – cemitério – capela.  Será que a primeira casa de Pesqueira não foi também do lado esquerdo da Capela? As pessoas antigas tinham algum preconceito contra casas velhas, quem sabe não destruíram a primeira casa?  Nessa hipótese, há muito terreno a escavar.
A atual câmara, que não se justifica ainda ali funcionar, tanto espaço que se tem, está aí a Peixe inteira pra a receber – ali é lugar para uma biblioteca, um museu, ou semelhante. Pois bem, aquele prédio parece inspirar-se na Cadeia do Brejo, projeto do engenheiro francês Luís Vauthier, até pela localização, estrategicamente situada a cavaleiro de todo o entorno, na extremidade oeste da chã, sobre a qual se situa todo aquele sitio e casas, com privilegiada visão das antigas várzeas, hoje quase não mais existentes.
Luiz Wilson fala de uma casa de hóspedes…Qual a primeira casa? A favor da Câmara:  a senzala defronte, que ainda aparece em antigas fotos, que funcionou algum tempo como depósito de lixo e hoje campeia,  imponente, a casa da família Araújo Barros. Morreu a mulher com mais de cem anos que poderia dizer qual teria sido.
E há o folclórico assunto das botijas com seus caçadores (eles existem), aí já fica para o próximo capítulo.
Pe. Eduardo Valença.

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O Primeiro Bispo da Diocese de Pesqueira

A maioria das pessoas, talvez todas, tem Dom José Lopes como o primeiro bispo de Pesqueira. No entanto a história oficial é diferente.
Em 5 de dezembro de 1910, a Igreja de Roma criou a Diocese de Floresta, a primeira do Sertão pernambucano, desmembrada da então Diocese de Olinda, que na mesma data foi elevada a Arquidiocese. Em 12 de maio do ano seguinte, a nova e imensa diocese conheceria o seu primeiro bispo, Dom Augusto Álvaro da Silva, um recifense nascido em 8 de abril de 1876 e ordenado sacerdote em 1899. Sendo esta a mesma sede episcopal que depois, em 1918, seria transferida para Pesqueira, temos Dom Augusto oficialmente como seu primeiro bispo e Dom José Lopes, nomeado em 1915, como o segundo titular, embora este consagrado popularmente na cidade como o primeiro.

 

Dom Augusto Álvaro Cardeal da Silva
Luís Wilson nos conta (Roteiro de Velhos e Grandes Sertanejos. Recife: FIAM. 1978) que Dom Augusto era um homem culto e inteligente, poeta e jornalista. Ele chegou até a publicar alguns livros sob o pseudônimo de Carlos Neto. Sua nomeação para bispo da nova Diocese saiu em 20 de dezembro de 1910  e sua sagração ocorreu em 22 de outubro de 1911 na matriz de São José, em Recife, por  Dom Luiz de Brito (tendo como auxiliares Dom Joaquim de Almeida e Dom Francisco, bispos de Natal e do Maranhão, respectivamente).
Também Luis Wilson, citando Álvaro Ferraz (autor de Floresta, Memórias de duma Cidade Sertaneja no seu Cinqüentenário), nos conta também que no dia 16 de novembro de 1911 partiu uma comitiva de Floresta. O grupo era formado por Antônio Serafim de Sousa Ferraz (conhecido como Antônio Boiadeiro), Antônio Ferraz de Sousa e João Barbosa de Sá Gominho, sertanejos acostumados a cavalgar por aqueles caminhos inóspitos. A missão era conduzir o bispo de Mimoso (em Pesqueira), fim da linha da Great Western, até sua nova residência. Sem o apoio do grupo, que conhecia muito bem o caminho e suas pousadas, a viagem seria mais demorada e mais perigosa.
A comitiva deixa Mimoso em 23 de novembro e alcança o último pouso na tarde do dia 28, a fazenda Água-Pé, às margens do Riacho do Navio. Essa parte da história Luiz Wilson ouviu do sertanejo Fortunato de Sá Gominho, conforme consta em sua obra já citada.
O grupo finalmente alcançou seu destino na manhã do dia seguinte. Era então entre 8 e 9 horas da manhã do dia 29 de novembro de 1911. O bispo entrou na cidade acompanhado de mais de 300 cavaleiros e foi recebido pela população com uma grande festa, fogos e a banda municipal, que executava o Hino Pontifício. Na igreja matriz a recepção foi a cargo do vigário José Ribeiro e do vigário de Belém de São Francisco, o padre Phalemppim.
Dom Augusto alavancou o desenvolvimento educacional e cultural de Floresta fundando um colégio, um jornal (o Alto Sertão) e um seminário. No entanto, em 08 de setembro de 1915, ele deixou sua primeira Diocese para dirigir a Diocese de Barra, na Bahia. Em 1924 torna-se arcebispo daquele Estado e ganha destaque no País inteiro ao organizar o primeiro Congresso Eucarístico Nacional e ao se tornar presidente da Comissão dos Congressos Eucarísticos Brasileiros.
Em 11 de janeiro de 1953, Dom Augusto é nomeado cardeal pelo Vaticano, depois de somar uma grande obra  humana e religiosa. Falecido em 1968, foi sepultado com suas vestes de bispo, conforme sua vontade.
Há muito mais a se falar sobre o grande Dom Augusto Cardeal Silva, no entanto a nossa intenção é tratar o assunto de forma sucinta. Assim, depois dessa introdução, vamos à parte que corresponde à história de Pesqueira.
Com a saída de Dom Augusto da Diocese de Floresta, lá ficou como administrador apostólico o padre Frederico de Oliveira, que era vigário de Tacaratu. Ainda naquele ano de 1915, em 21 de novembro, toma posse o novo bispo: Dom José Antônio de Oliveira Lopes, natural de Recife e nascido em 11 de abril de 1868.
Em 1918, no entanto, a cidade de Floresta sofre um duro golpe. O Papa Bento XV, pela bula ARCHIDIOCESIS OLINDENSIS ET RECIFENSIS, de 02 de agosto de 1918, transfere a Diocese de Floresta para Pesqueira. Esse é um ponto no qual muita gente ainda tem dúvida. O fato é que a Diocese de Pesqueira não foi criada em 1918 e sim em 1910 e Dom José Lopes não é bispo desde 1919 e sim desde 1915. A bula papal mudou o endereço da antiga diocese e o seu nome e na verdade não criou uma nova. Naturalmente Dom José Lopes já era o bispo titular, então se mudou para Pesqueira no ano seguinte.
 
O ótimo site Catholic Hierarchy (disponível em http://www.catholic-hierarchy.org) consegue mostrar bem esse processo:
Data
Evento
De
Para
05/12/1910
Instituída
Diocese de Olinda
Diocese de Floresta (instituída)
02/08/1918
Nome mudado
Diocese de Floresta
Diocese de Pesqueira
30/11/1923
Perda de território
Diocese de Pesqueira
Diocese de Petrolina (instituída)
02/07/1956
Perda de território
Diocese de Pesqueira
Diocese de Afogados da Ingazeira (instituída)
15/02/1964
Perda de território
Diocese de Pesqueira
Diocese de Floresta (instituída)
A tradução desta tabela é nossa. E nela pode ser constatado que a antiga diocese de Floresta e a atual Diocese de Pesqueira são técnica e oficialmente a mesma. Vemos ainda a novas dioceses criadas a partir de Pesqueira, inclusive a nova Diocese de Floresta, que não é a mesma de 1910.
 
As informações seguintes, também do site Catholic Hierarchy e mais uma vez de tradução nossa, mostram o histórico dos bispos da diocese em questão:
BISPOS VIVOS:
Bernardino Marchió (Bispo Coadjutor: 27 Mar 1991; Bispo: 26 May 1993 6 Nov 2002) 
BISPOS FALECIDOS:
Adalberto Accioli Sobral † (Bispo: 13 Jan 1934 a 18 Jan 1947)
Severino Mariano de Aguiar † (Bispo: 3 Dec 1956 a 14 Mar 1980)
Adelmo Cavalcante Machado † (Bispo: 3 Apr 1948 a 24 Jun 1955)
Augusto Álvaro da Silva † (Bispo: 12 May 1911 a 25 Jun 1915)
José Antônio de Oliveira Lopes † (Bispo: 26 Jun 1915 a 24 Nov 1932)
Manuel Palmeira da Rocha † (Bispo: 14 Mar 1980 a 26 Mai 1993)
         Com as informações do Catholic Hierarchy apenas confirmamos o que já tínhamos falado.
 
        A mesma bula Criou também as dioceses de Nazaré e Garanhuns. Bento XV, com aquela publicação, fez a Igreja de Pernambuco dar um enorme passo.


         Por Oliveira do Nascimento.

        Acréscimos e correções feitos em 16.04.2018.
         Fontes:
          WILSON, Luís. Roteiro de Velhos e Grandes Sertanejos. Recife: FIAM. 1978


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<hr ‘style: color blue’ />Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

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