A História do Cinema em Pesqueira

Os irmãos Lumière apresentaram sua invenção para o mundo em 1895. Era uma máquina, a qual chamavam de cinematógrafo, que projetava um filme em movimento diante de olhos curiosos dentro de uma sala escura.
O cinematógrafo chegou ao Brasil em julho de 1896 e, um ano depois, o Rio de Janeiro já contava com a primeira sala fixa de cinema: o Salão de Novidades de Paris. Em Pernambuco a novidade chegou em 27 de julho de 1909, com a inauguração do Pathé, em Recife.
Pesqueira, antes de o cinema chegar, conhecia o fotógrafo Severiano Neto, conhecido por Netinho, que vivia pelas festas da cidade e da região com um aparelho que projetava xilogravuras esculpidas por ele mesmo. Ele chamava aquilo de cinema instrutivo, no entanto a projeção era de imagens paradas, sem qualquer movimento. Apesar da precariedade e rusticidade, o aparato fazia sucesso.
O primeiro cinema propriamente dito de Pesqueira foi o Recreio Familiar, inaugurado em setembro de 1910 e que funcionava no Teatro Recreio Familiar Pesqueirense, na então Rua Duque de Caxias, atualmente o endereço correspondente à Cardeal Arcoverde, 65. O cinema era um empreendimento de Tonhé Didier e cobrava 1$000 por assento ou 500 réis por um lugar na plateia. Mais tarde seu nome seria mudado para Cine Pesqueira. Não sei exatamente em que ano a mudança ocorreu, mas, segundo Luís Wilson (em Ararobá Lendária e Eterna), um anuncio da Gazeta de Pesqueira de 16 de novembro de 1913 noticiava a exibição do filme Quo Vadis? No Cinema Pesqueira, ou seja, naquela data o nome já era o novo. A nota informava ainda o aumento do ingresso para os assentos, que passava a custar 2$000.
Luís Wilson, na mesma obra citada, afirma que em um dos números da Gazeta de Pesqueira de 1910 saiu o anúncio do funcionamento do Cinema Brasil, que cobrava 500 réis pela entrada na plateia e 1000 réis pelos assentos. Curiosamente é no mesmo ano da estreia do cinema Recreio Familiar (depois Cinema Pesqueira) e os preços dos ingressos são idênticos. Não sei se foi um equívoco do jornal ou de Luís Wilson ao fazer a citação ou ainda se se trata realmente de outro cinema. Até o momento não encontrei qualquer outra citação sobre o mesmo.
Em 1º. De novembro de 1914 surgiu o cinema de Tito Rego, que se chamava inicialmente de Cinema-Teatro e funcionava no Largo da Matriz, no mesmo prédio onde antes esteve o cartório do Maestro Tomás de Aquino. Em 11 de maio de 1915, com o nome de O Ideal, o novo cinema inaugurava uma moderna máquina de projeção, um Kinetophone Elgé, que era o que havia de mais avançado na época. O Ideal ficava no coração da cidade, contava com equipamento de primeira qualidade e exibia três sessões semanais, isso fez dele o primeiro grande cinema de Pesqueira.
O Ideal, de Tito Rego
Depois, mas ainda na época de O Ideal e do Cine Pesqueira, surgiu o Cinema Popular, que funcionava no número 31 da Rua Barão de Vila Bela. Esse cinema pertencia a dois comerciantes: Epifânio Cordeiro (vulgo seu Tapuio) e Francisco Tenório Sobrinho.
Esses foram os três primeiro cinemas de Pesqueira e, como o cinema ainda não falava, naquela época era comum as sessões serem acompanhadas por orquestras com grande repertório e habilidade para tocar as músicas certas para cada filme ou cena. Esse papel cabia ao Maestro Tomás de Aquino, que dividia seus músicos entre as três salas. Geralmente ele ficava no Ideal, onde tocava violino e era acompanhado por Glicério Maciel no pistom, Orestes Maciel (ou Alípio Galvão) na flauta e Napoleão Marques no clarinete, dentre outros músicos.
Em 1938 a cidade ganhou um novo cinema, o Cinema Moderno, que substituiu O Ideal. A novidade, segundo informações de Álvaro José Soares Ferreira, era dos irmãos Álvaro e Antônio Soares (seu avô e tio avô, respectivamente), que tinham como sócio Gilberto Pita, filho de Tito Rego. O Moderno tinha uma sala de projeção com capacidade para 480 pessoas e um projetor de 35 mm (ver blog Cine Mafalda, http://cinemafalda.blogspot.com/). Funcionava no número 83 da Rua Duque de Caxias, até que em 1967 mudou-se para um novo prédio, na mesma rua ao lado do Clube dos 50. O novo prédio era um espetáculo a parte e lembrava um cinema de cidade grande. Na parte da frente tinha uma galeria de lojas, sorveteria, etc., a sala de projeção era imensa e suportava mais de mil espectadores, além dos camarotes. Pode-se dizer que esse segundo Cinema Moderno foi o maior que Pesqueira já teve em todos os tempos.
Prédio original do Moderno
O blog Cine Mafalda, em sua relação de cinemas de rua em atividade nos anos 60, cita, além do Moderno, a Rádio Difusora de Pesqueira, com capacidade para 500 pessoas e projetor de 16 mm. Essa é uma informação totalmente nova para mim, não sabia da existência de uma máquina de projeção no auditório da rádio. Embora não tenhamos notícias de que algum filme tenha sido projetado ali, fica o registro histórico.
Houve ainda o cinema que pertencia à Diocese de Pesqueira e era conhecido popularmente como Cinema do Padre. Ainda segundo Álvaro José Soares Ferreira, seu nome verdadeiro era Cine Pesqueira. Essa informação me foi confirmada pelo Pe. Eduardo Valença, que me contou também que o nome oficial aparecia apenas em cartazes de rua e outras referências, não tendo qualquer letreiro na fachada ou no interior. Com certeza o esquecimento de seu nome real veio desse fato. Ele funcionava num grande prédio existente ainda hoje em frente ao Colégio Cristo Rei, idealizado e projetado pelo Pe. José Siqueira (segundo ainda Pe. Eduardo Valença). Não tenho informações precisas sobre datas de fundação e encerramento, mas o mesmo funcionou na mesma época da segunda fase do Moderno e foi fechado quando do bispado de Dom Mariano.
O último cinema a se manter funcionamento foi mesmo o Moderno, que fechou por volta de 1991 e reabriu em 1995, fechando definitivamente poucos meses depois, na mesma época da popularização dos aparelhos de vídeo cassete. Desde então Pesqueira não conta mais com nenhuma sala de exibição.
As chances de um novo cinema aparecer na cidade são praticamente nulas. Mesmo esse tipo de negócio tendo crescido nos últimos anos, ainda está aquém do que foi um dia. E a desfiguração dos velhos prédios ainda existentes em Pesqueira em nada ajuda a aumentar as possibilidades, já que seria necessária a construção de um novo ou uma gigantesca e inviável reforma em um dos remanescentes. Lembrando que ainda nem falamos do desinteresse da população em trocar um DVD pirata, barato e de péssima qualidade por uma exibição numa tela gigante e mágica e, mais, tendo de pagar um valor acima de R$ 2,00 de entrada. 
Realmente, em Pesqueira, o cinema não teve um final feliz.

Por Oliveira do Nascimento 

Notas:

  • Matéria atualizada em 28/02/2012 com informações de Álvaro José Soares Ferreira e Pe. Eduardo Valença. 
Fontes:

Cine Mafalda (blog disponível em http://cinemafalda.blogspot.com/ em 30/10/2011);

GASPAR, Lucia. Cinemas Antigos do Recfe. Matérias disponível em  
http://jconlineblogs.ne10.uol.com.br/jcempauta/2011/08/23/estado-compra-o-cine-sao-luiz/ em 05/11/2011;

Nadiversidades (blog disponível em http://nadiversidades.blogspot.com/ em 05/11/2011);


WILSON, Luís. Ararobá, Lendária e Eterna. Pesqueira: Prefeitura Municipal, 1980;
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Eleições e Peças de Teatro na Capela de Pesqueira

A capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens em 1870 recebeu provisoriamente a freguesia de Santa Águeda, ficando com essa função até 1889, quando a nova igreja de Pesqueira foi concluída depois de incríveis 37 anos de obras. No entanto, além dos exercícios religiosos, a primitiva capela mandada construir por Manuel José de Siqueira tinha outros usos. Foi nela que, em 1892, foi realizada a primeira eleição do município autônomo de Cimbres, eleição aberta e a bico de pena que elegeu André Bezerra do Rego Barros como primeiro prefeito e Tomás de Aquino Maciel como conselheiro presidente do Conselho Municipal.
Fachada original da capela

No entanto, antes disso, em 1886, o patamar da capela foi palco da primeira peça encenada em Pesqueira: O Lírio Negro, da autoria do maestro Tomás de Aquino (MACIEL, 1982). Vale lembrar que a capela ainda era a original da fazenda Poço Pesqueiro e não a construída por Dom José Lopes em 1919 em seu lugar.

Por Oliveira do Nascimento.

Fontes:
MACIEL, Frederico Bezerra. Ubassagas. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1982.

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Ararobá, Lendária e Eterna

Retorno a tratar da literatura referente à história de Pesqueira. Esse é um assunto que não dá para deixar de lado. Embora tenha descoberto muito material interessante e desconhecido pela maioria, por enquanto vou me ater às obras clássicas, mais populares e fáceis de encontrar. E, sem sombra de dúvida, o livro Ararobá, Lendária e Eterna é um dos mais interessantes exemplares deste tipo.

Capa do livro, por Julio Gonçalves.
O livro é  trabalho de Luís Wilson, que era vilabelense de nascimento, mas cresceu entre Arcoverde e Pesqueira, onde estudou e mais tarde fez carreira como médico. Em paralelo estudava a história de suas duas terras. Assim, nos deixou uma grande herança de pesquisa e informações históricas sobre as duas cidades.

Para nós especialmente, Ararobá, Lendária e Eterna é sua obra mais importante. A edição é de 1980, da Prefeitura Municipal de Pesqueira, e representa mais uma das várias obras que foram levadas a público no ano do centenário da elevação da vila a cidade. São 457 páginas distribuídas entre 15 capítulos. A seguir alguns assuntos tratados em cada um deles:

Capítulo I: Trata dos primórdios da história cimbrense, algumas informações sobre a Capitania de Itamaracá e sobre a sesmaria ganha por João Fernandes Vieira. Trata também da Guerra dos Bárbaros e da Confederação Cariri;

Capítulo II: Apresenta o capitão Pantaleão de Siqueira Barbosa, pai do fundador de Pesqueira. Trata também do próprio Manuel José de Siqueira e sua fazenda Poço do Pesqueiro e dos chamados Vinte de Pesqueira;

Capítulo III: Trata do capitão-mor Antônio dos Santos Coelho da Silva, fundador da fazenda Jenipapo, e sua filhas. Trata também de seus genros (assim como Manuel de Siqueira) Domingos de Souza Leão e Francisco Xavier Paes de Melo Barreto;

Capítulo IV: Trata da primitiva política cimbrense, dos primeiros presidentes do Senado e seus juízes ordinários. Também fala dos prefeitos do município de Cimbres já autônomo, a partir de 1893 com André Bezerra do Rego Barros;

Capítulo V: Este capítulo é dedicados às igrejas de Pesqueira, menos à igreja de Cimbres;

Capítulo VI: Aqui Luís Wilson nos fala da família Brito, começando pelo Barão de Cimbres, passando por Carlos de Brito e sua esposa dona Yayá. Ele aproveita e nos dá importantes informações sobre os primórdios da fábrica Peixe, inclusive sobre os doces de dona Negu da Pitanga e sua filhas Dina Doceira, Emília e Maria Frecheiras;

Capítulo VII: Continua com a família Brito (Jurandir de Brito e outros). Trata também da administração de Pesqueira por um deles, o famoso “seu” Candinho;

Capítulo VIII: Zeferino Galvão, o maior expoente da cultura pesqueirense de todos os tempo, é o assunto desse capítulo;

Capítulo IX: Dedicado a José Araújo e sua família, bem como (evidentemente) à sua loja de 1890;

Capítulo X: Trata do tenente-coronel José do Rego Couto e seus filhos, entre eles o comendador José Didier;

Capítulo XI: André Bezerra do Rego Barros, o primeiro prefeito do município autônomo de Cimbres, e outros membros da mesma família;

Capítulo XII: Sobre o comerciante, conselheiro e historiador José de Almeida Maciel, seus alunos em Pesqueira e sua primeira professora dona Úrusual Cizelina;

Capítulo XIII: Sobre professores e estudantes de Pesqueira no começo o Século XX, a família Valença, Anísio, Alípio Galvão e outros;

Capítulo XIV: Trata dos velhos jornais de Pesqueira: O Serrano, A Tarde, Gazeta de Pesqueira e outros. O capítulo fala também sobre os antigos cinemas de Pesqueira;

Capítulo XV: O último capítulo do livro é dedicado a Dom José Antônio de Oliveira Lopes e outros bispos, o Colégio Diocesano e o Santa Dorotéia, bem como o Ginásio Cristo Rei.

Esse foi apenas o resumo sobre os principais assuntos, na verdade há muito mais. O espaço é curto para falarmos de tudo e, na verdade, essa não é a intenção. Para aproveitar tudo que essa obra de importância ímpar oferece, só a lendo por inteiro. Com certeza é uma experiência fascinante, pois a pesquisa de Luís Wilson foi rica e abrangente, muito enriquece o conhecimento de quem a lê. Aliás, trata-se de mais uma leitura obrigatória para quem quer conhecer a história de Cimbres e Pesqueira.

O livro enquanto estava sendo escrito chamava-se A Velha Fazenda Poço da Pesqueira (História de Algumas de Suas Famílias), mas o nome foi mudado antes do lançamento. É conveniente lembrar que esse título, Ararobá, Lendária e Eterna, virou um clássico popular. Mesmo quem nunca leu o livro, ouve esse nome ecoando até os dias de hoje.

Por Oliveira do Nascimento.
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O Barão NÃO era de Vila Bela

O título “Barão de Vila Bela” foi criado pelo imperador D. Pedro I para agraciar o marechal Francisco de Paula Magessi Tavares de Carvalho (1769 – 1847) em 15 de fevereiro de 1827. O militar português foi presidente do Mato Grosso em 1817 e da Cisplatina em 1825, onde recebeu a honraria.

O segundo Barão de Vila Bela foi Domingos de Souza Leão, cimbrense de Jenipapo, filho de Domingos de Souza Leão (sênior) e de Teresa de Jesus Coelho, que era filha do capitão-mor de Ararobá Antônio dos Santos Coelho.

Domingos Souza Leão
É notório que houve uma vila no sertão do Pajeú de nome Vila Bela, que mais tarde se tornaria a importante cidade de Serra Talhada. É nesse ponto que surge o frequente engano. Muitos acham que o título foi criado em homenagem àquela vila do Pajeú, no entanto essa informação é inverídica. O título foi criado em 1827 e Vila Bela só ganharia esse nome em 1851, quando da transferência da sede do município (não autônomo) de Flores para lá, resultando em sua elevação à categoria de vila, em processo semelhante ao ocorrido com Pesqueira em relação a Cimbres em 1836.
Em 1827 Vila Bela ainda se chamava Serra Talhada (seu nome primitivo, que tornaria a ser usado em 1939) e não passava de uma pequena povoação. Está claro que o nome do título nobilitário era autêntico e era impossível ser referência ao arruado do Pajeú.
Francisco de Paula Magessi Tavares de Carvalho manteve-se como Barão de Vila Bela até sua morte no Rio de Janeiro em 1847. Domingos de Souza Leão que também não era vilabelense, e sim cimbrense, recebe o título em 1866.

Por Oliveira do Nascimento



Fontes: 
SILVA, Alfredo P.M. Os Generais do Exército Brasileiro, 1822 a 1889, M. Orosco & Co., Rio de Janeiro, 1906, vol. 1.
BARBALHO, Nelson. Cronologia Pernambucana, Volume 15 (1825-1828), FIAM. Recife. 1984.

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A maior tragédia de Ararobá

Antônio dos Santos Coelho da Silva, fundador da fazenda Jenipapo, foi capitão-mor de Ararobá, o cargo militar mais importante daquela época. O português, que manteve-se no posto até sua morte em 1822, era um dos homens mais ricos de Pernambuco, dono de grande fortuna e poder. Na sua casa não havia varões, moças apenas. Essa série de caraterísticas atraía muitos homens em busca de crescimento social, econômico e político. Aliás, as terras onde hoje está a cidade de Pesqueira pertenceu primeiro a Santos Coelho, que as deu a Manuel José de Siqueira como dote pelo casamento de sua filha Clara Coelho dos Santos com ele. Vê-se claramente como esse enlace foi importante para Siqueira, fundamental para que ele se fixasse na região em lugar estratégico, o exato lugar onde ele ergueu a fazenda que mais tarde se tornaria sede da Vila de Cimbres.

Reconstituição da casa grande de Poço de Patos
Outro casamento importante saído da casa de Santos Coelho foi de sua filha Ana Vitória Coelho dos Santos com Francisco Xavier Paes de Melo Barreto. O casal foi viver na fazenda Poço de Patos, onde ergueram uma enorme casa em terra também recebida de Santos Coelho em forma de dote.
Os dois genros do capitão eram diferentes ao extremo. Siqueira era sertanejo da região chamada de Moxotó, rude violento e de pouca cultura. Era adepto de resolver tudo na violência, não conhecia o que era a Justiça, embora fosse homem do governo. Xavier era do litoral, tinha cultura e valorizava as Letras. Na residência construída em Poço de Patos deixou bem a sua marca de cultura e bom gosto. A casa tinha capela interna e biblioteca, ao redor da propriedade havia um muro com um portão de ferro bem trabalhado. Das 22 janelas, 17 eram vidraças finas trazidas de portugal, conforme nos conta José de Almeica Maciel (Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, 1980). A única coisa que os dois tinham em comum era a ambição pelo poder. Não se davam, eram inimigos declarados. Xavier era alvo constante das críticas do velho sertanejo Siqueira, que dizia que homens como aquele vinham para o sertão em busca apenas de vantagens, de tirar proveito das moças do interior. No entanto o próprio Siqueira não enxergava que ele também agia por puro interesse.
Quando da morte do capitão-mor Santos Coelho em 1822, deu-se início uma guerra entre os seus dois genros, que lutavam pela promoção de sargento-mor, patente que ambos detinham, para a de capitão-mor. Foram muitas emboscadas e surras entre os homens das duas fazendas, era Poço Pesqueiro contra Poço de Patos. As ameaças eram constantes, que sempre acabavam em sequências de pura violência, mesmo tendo sido os dois finalmente elevados à patente que tanto desejavam. O orgulho de ambos não os deixava dividir o título. Os jornais da época levavam a público essa guerra, que ficou conhecida em todo a província, inclusive na capital. Foi uma história de muitos capítulos e de final trágico. Como o foco desta matéria é apenas um destes capítulos, vamos a ele.
Siqueira, apesar de ter Xavier como seu maior inimigo, nutria muita simpatia e apreço pela sua cunhada Ana Vitória. No entanto acabou sendo o principal acusado da maior tragédia havida na familia. Em 27 de dezembro de 1829, na boca da noite, dona Ana Vitória ouve uma voz conhecida chamar à porta da fazenda Poço de Patos. Ao abrí-la, é recebida por vários tiros e cai ferida. Os homens da fazenda saem ao encalço dos atiradores, mas estes fogem e não são encontrados. 
Nunca ficou comprovado que Siqueira tenha sido o mandante do crime, mas é certo que os tiros eram destinados a Xavier e não à sua esposa. Dona Ana Vitória, dedicada mãe e esposa, falece em 10 de janeiro de 1830, vítima dos ferimentos. Foi sepultada na capela da fazenda Jenipapo, deixando 10 filhos órfãos, entre eles Francisco Xavier Paes Barreto com 9 anos de idade. Este mais tarde se tornaria o conhecido e respeitado Conselheiro Paes Barreto
Depois da tragédia Xavier foi para Recife levando os filhos. Abatido com o ocorrido, debilitado por problemas de saúde, viu ainda a paz que já não tinha ser abalada ainda mais por ações judiciais que ameaçavam o sequestro de seus bens. Sua saúde foi então minguando cada vez mais. E os inimigos não lhe davam trégua, diz José de Almeida Maciel (em obra já citada): “O propósito de fustigá-lo, quando não de abatê-lo impiedosamente, dir-se-ia preocupação única  entre os seus desafetos de Pesqueira.”

Para atender uma determinação judicial Xavier precisou voltar para o interior, fixando-se no Brejo, onde na época estavam residindo os ouvidores da Comarca do Sertão. Eles acabaram determinado um curador para seus filhos e também a abertura de seu inventário, que ocorreu ali em 02 de dezembro de 1830, o mesmo dia no qual recebeu a notícia da morte de sua sogra, dona Tereza de Jesus Leite. Não pôde comparecer ao sepultamento em Jenipapo devido a mais um agravo de sua frágil saúde. A vida lhe aplicava castigo em cima de castigo, até que sua luta chegou ao fim no dia 18 de dezembro de 1830, quando seu corpo (e mente) não aguentou mais os sofrimentos aos quais fora submetido. 
Àquela altura Siqueira já tinha se recolhido em Poço Pesqueiro. Já em idade avançada e abatido pelo ocorrido com a cunhada que tanto estimava, passou a ter uma vida de tristeza. Diziam alguns que sua reclusão se deu por remorso, mas de fato nunca se conseguiu comprovar que ele fosse o mandante do crime. A questão ficara apenas na acusação. Em 19 de outubro de 1831 o velho capitão falece em sua fazenda, sendo sepultado na capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens.

Encerrava-se a maior disputa que se tem notícia ter ocorrido em terras cimbrenses. Siqueira e Xavier fizeram história na política, fizeram riqueza, ganharam respeito e muito prestígio em sua época, mas findaram penosamente.

Por Oliveira do Nascimento

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A Gazeta de Pesqueira

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Cabeçalho da Gazeta de Pesqueira, de 15/11/1904

O primeiro jornal de Pesqueira, pode-se dizer, foi O Serrano, que circulou na cidade entre os anos de 1901 e 1902. Embora simples (era manuscrito em papel paltado e colorido a lápis de cor), foi o marco inicial da imprensa local. A publicação era obra de um grupo de estudantes com idades entre 11 e 12 anos. Tendo como fundadores os irmãos Anísio e Alípio Galvão, filhos do grande escritor Zeferino Galvão, contava ainda com a colaboração dos redatores Glicério e Elpídio Maciel e Aristides Bezerra Cavalcanti. Os repórteres eram Osório Araújo e Pompeu Augusto dos Santos.
Cada exemplar do jornal, que era formada por 4 folhas, era vendido a 3 vintens e saía aos domingos. Seu conteúdo era formado por pequenas matérias, notícias, desenhos coloridos e exercícios escolares. É o que nos conta Luis do Nascimento (em História da Imprensa de Pernambuco, volume XI). Fica claro o pensamento de vanguarda dos jovens estudantes.
Ainda naquele princípio da história da imprensa local, uma briga entre Anísio Galvão e Glicério Maciel fez com que este último fundasse um novo jornal, que recebeu o nome de A Tarde. No entanto, a nova publicação durou pouco, foram oito edições publicadas aos domingos e vendidas a dois vintens. Seu fim foi decretado pela retomada da amizade dos dois companheiros, voltando Glicério a integrar a equipe de O Serrano.
Sebastião Cavalcanti (fundador da Gazeta de Pesqueira) e família.

Embora o jornal de Anísio e Alípio tenha sido de fato o primeiro passo da imprensa em Pesqueira, ele era apenas um “jornalzinho” de estudantes, embora com todos os méritos. Em 1902, no dia 15 de novembro, surgiu então o primeiro grande jornal da cidade: A Gazeta de Pesqueira. Seu fundador foi Sebastião Cavalcanti, na época um importante comerciante, empreendedor e homem de ampla visão. Entre seus colaboradores estavam nomes como Adolfo Santos e Francisco Alexandrino de Albuquerque Melo e Zeferino Galvão, este o maior escritor pesqueirense de todos os tempos.

A redação funcioanava na então rua Marquês do Herval, 26. Seu tipógrado foi Epaminondas Leite, que foi também o primeiro profissional deste tipo na cidade, segundo informa Luis do Nascimento na obra já citada.
     Primeiro sobrado à esquerda: sede da Gazeta de Pesqueira.  
Foto da coleção dos ex-alunos do Colégio Cristo Rei

O primeiro número da Gazeta tinha sido anunciado 15 dias antes, no dia 01/11/1902, por um pequeno jornal chamado O Colibri, que teve apenas uma edição, especialmente para anunciar a novidade que estava por vir. Aquela primeira edição do jornal de Sebastião Cavalcanti trouxe uma matéria de Zeferino Galvão sobre a Proclamação da República, o que veio a calhar, já que era então 15 de novembro.






O semanário tinha 4 páginas, e às vezes saía com páginas extras, em suplemento. Depois aumentou definitivamente de tamanho, passando a sair com 6 e depois com 8 páginas. Em 1903 uniram-se ao jornal Thomaz de Aquino de Almeida Maciel, Benjamim Caraciolo, João Chacon e Lauro Sílvio.

Ainda naquele ano, Sebastião Cavalcanti adquiriu uma máquina de impressão maior, o que permitiu a reformulação do jornal, que passou a ter então 39 x 28 centímetros, maior que o anterior 25 x 18.



Em abril de 1906 Zeferino Galvão assume a direção e propriedade da Gazeta de Pesqueira, tendo seu fundador se mudado pouco tempo depois para a capital do Estado. Naquela nova fase Adolfo Santos passa a ser o redator do jornal e Anísio Galvão torna-se seu revisor. Zeferino, além de diretor-proprietário, acumula as funções de revisor, tipógrafo e impressor. O maestro Thomaz de Aquino de Almeida Maciel torna-se colaborador permanente.
Zeferino Galvão: o homem que derrotou gigantes.

Em 16/02/1908 o jornal muda novamente de formato e passa a ter 51 x 32 cm. Foi também naquele mesmo ano que Zeferino Galvão, a 15 de dezembro, passou a publicar o seu romance Olâmpio, o Corvo, no rodapé da Gazeta. Em 26/08/1909 passa a publicar do mesmo modo o romance Cadete Bonifácio.




Em 26/11/1911 a publicação da Gazeta de Pesqueira é suspensa, só retornando um ano depois. Seu retorno conta com Glicério Maciel (o mesmo do já antigo jornalzinho O Serrano), que na época enviava seus textos de São Paulo, onde vivia.

Em 1916 junta-se à redação o grande historiador José de Almeida Maciel (seu Cazuzinha Maciel) e o cel. Antônio Japyassu.

A publicação circulou até 1921. Logo depois Zeferino Galvão mudou-se para Recife e lá faleceu em 1924.

Em 1952 a Gazeta de Pesqueira voltou sob a direção de Luiz Neves e tendo Pedro Santa Cruz como gerente. Nessa segunda fase houve a colaboração de, entre outros, Aloísio Falcão, seu Oton Almeida, Jarival Cordeiro e ainda contava com o sempre ativo no jornalismo Glicério Maciel.

Houve ainda uma terceira e quarta fase da Gazeta, em 1961 e 1972, quando foi prefeito de Pesqueira Luiz Neves nas duas oportunidades. Nessas últimas fases, que pouco duraram, estiveram a frente da publicação Oton Almeida, Antônio Farias e Rinaldo Jatobá.

Nunca é demais lembrar que foi nas folhas da Gazeta de Pesqueira que notícias foram dadas e batalhas foram travadas entre Zeferino Galvão e a Great Western sobre a passagem da estrada de ferro entre Sanharó e Pesqueira. Se a nada mais o jornal tivesse servido, isso só já seria motivo suficiente para que sua memória fosse mantida até o fim dos tempos. Aquele “jornalzinho” do interior marcou uma época na qual homens simples conseguiam derrotar gigantes.

Por Oliveira do Nascimento.



Fontes:
Luiz Wilson (Ararobá, Lendária e Eterna, 1980);
Pe. José Maria da Silva (A Imprensa na História de Pesqueira, in Pesqueira Secular, 1980).


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A Casa Grande de Pesqueira: autêntica


Foto: Renata Echeverria

Na matéria postada em 30 de abril de 2011, Casa Grande x Sobrado, foi abordada a dúvida sobre a autenticidade da casa grande da antiga fazenda Poço da Pesqueira. A questão foi causada pela falta de registros suficientes que atestem sobre qual construção na verdade desempenhou a função de sede da fazenda de Manuel José de Siqueira: se o prédio onde funciona a câmara dos vereadores ou o sobrado menor que fica ao lado.
A matéria foi apoiada principalmente na obra Anísio Galvão e Outras Notas para a História de Pesqueira, publicada em 1986 e de autoria de Luis Wilson. Não vou me estender sobre o livro, pois mais detalhes podem ser vistos na postagem já citada. Aliás, para uma melhor compreensão do caso, a leitura é obrigatória.
Depois de tudo que foi dito naquela ocasião, surgiu não um novo elemento, pois trata-se de registro em obra há muito usada e reusada em estudos sobre a história de Pernambuco. Estamos falando dos Anais Pernambucanos de Pereira da Costa, precisamente do volume dez (FUNDARPE, 1985).

Na página 84 da publicação, tratando da antiga fazenda Poço da Pesqueira, o autor diz:

“Apagados desde muitos anos os vestígios da fazenda pastoril originária da cidade, restava apenas o grande  e vistoso sobrado  de vivenda de seus proprietários, que por fim foi comprado pelo governo da província ao coronel Pantaleão de Sequeira Cavalcanti, filho do velho capitão-mor Manuel José de Sequeira, pela quantia de 6:000$000, em virtude de autorização conferida pela Lei Provincial de 30 de julho de 1857, n. 431, do orçamento provincial, para servir de cadeia, fórum e  casa da  câmara municipal.”
Aqui são necessárias algumas observações. A primeira é que, na obra já citada, Luis Wilson não cita Pereira da Costa. Dá-me a impressão de que ele não conhecia esse trecho dos Anais Pernambucanos. Essa é a única explicação que me ocorre para a falta da análise desse importantíssimo registro por parte dele.
Pereira da Costa leva o termo sobrado ao pé da letra (casa de dois pavimentos), por isso trata assim a casa da câmara, enquanto Luis Wilson e outros autores pesqueirenses, como Gilvan Maciel, atribuem o termo a construções de dois pavimentos, no entanto de menor tamanho, como é a construção vizinha da casa grande,    na qual funcionou o Colégio Diocesano e a Gazeta de Pesqueira.

Sobre o Pantaleão de Sequeira Cavalcanti citado, trata-se na verdade do sobrinho do velho capitão, e não do filho. No entanto, ele era casado com a filha deste: Clara Franscisca de Siqueira Cavalcanti, que tornou-se a segunda esposa do primo.

A última observação diz respeito ao nome Sequeira. Segundo Pereira da Costa, era assim que Manuel José de Siqueira assinava, assunto que não vem ao caso no momento.

A dúvida sobre a casa grande pode ser vista também nesse texto da FUNDARPE, disponível em http://www.nacaocultural.pe.gov.br/decreto-casa-de-camara-e-cadeia-de-pesqueira, em 07/07/2011:

“… a Casa de Câmara e Cadeia de Pesqueira tem no térreo as dependências de uma cadeia, e no pavimento superior, as instalações da Câmara, embora historiadores tenham levantado a hipótese de que anteriormente, no local do edifício teria existido inicialmente a sede da Fazenda Poço, construída ao final do século XVIII ou início dos XIX, pelo Capitão Mor Manoel José Siqueira. “

É importante observar que o nome da fazenda não era “Poço”, como diz o texto da FUNDARPE, e sim “Poço Pesqueiro” ou “Poço da Pesqueira”. Outro, agora claro, equívoco é a citação da “hipótese” no mesmo texto. Já temos elementos mais que suficientes para afirmarmos que a casa grande é a mesma que está no local até os dias de hoje, por isso não há lógica em afirmar que havia qualquer outra construção no lugar.

Já está comprovado também que algumas reformas foram feitas no sobrado. É provável que a parte superior da parede frontal, no ponto onde encontra o telhado, tenha sido remodelada, bem como algumas modificações no que diz respeito às portas e janelas e também à parte interior, que com certeza precisou ser adaptada para o novo uso. Mas é só, a casa é a mesma.

Acredito agora que todas as fontes sobre o assunto tenham sido esgotadas. No entanto, se mais algum elemento surgir, o mesmo virá a publico nestas páginas.

Oliveira do Nascimento.


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Quantos anos tem Pesqueira?

O tema a ser tratado é simples, porém, por incrível que pareça, ainda gera embaraços até mesmo nas autoridades e políticos locais.
Pode-se dizer que, como unidade política, a Pesqueira atual surgiu em 13 de maio de 1836, quando a Lei Provincial Nº 20 transferiu a sede da Vila de Cimbres para a povoação ao pé da serra, que naquela época já fazia vários anos que sediava suas atividades políticas. A antiga sede, por ficar no alto da serra, oferecia acesso difícil. Já Pesqueira, embora fizesse poucos anos que não passava de uma fazenda de criação, além de oferecer fácil chegada, já tinha alcançado grande desenvolvimento. Para alguns, o capitão-mor Manoel de Siqueira tinha construído sua fazenda Poço Pesqueiro em 1800 propositadamente para o que ela se tornou. E por pouco o velho fundador não viu a fazenda virar sede da vila de Cimbres, pois morreu em 1831, cinco anos antes.
A Lei Nº 20/1836 não fala em Pesqueira se tornar vila, fala apenas na transferência da sede de Cimbres. Entenda-se que Cimbres mudava de endereço, tudo que funcionava lá devia passar a funcionar oficial e definitivamente na povoação ao pé da serra do Ararobá. É com essa lei que a povoação recebe oficialmente o nome de “Pesqueira” e, podemos deduzir, é transformada automaticamente em vila.
Já em 20 de abril de 1880, a Lei Nº 1484, assinada por Adelino de Lima Freire, vice-presidente de Pernambuco, elevou a vila de Pesqueira à categoria de cidade. A publicação confirma ainda o que já havia sido deduzido antes: Pesqueira já era vila em 13 de maio 1836, e acabara de se tornar a 15ª cidade da Província e a primeira de todo o sertão. A próxima elevação de vila a cidade só ocorreria 15 anos depois, com Petrolina em 1895.

O texto da Lei segue abaixo: 

LEI Nº 1.484, DE 20 DE ABRIL DE 1880
O Bacharel ADELINO ANTONIO DE LUNA FREIRE, Oficial da Imperial Ordem da Rosa, Juiz de Direito e Vice-Presidente da Província de Pernambuco.
Faço saber a todos os habitantes os seus habitantes que a Assembleia Legislativa Provincial decretou e eu sancionei a resolução seguinte:
Art. 1º – Fica elevada à cathegoria de cidade a villa de Santa Águeda de Pesqueira, sob a mesma denominação.
Art. 2º – Ficam revogadas as disposições em contrário.
Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da presente resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nella se contêm.
O secretário da Presidência desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio da Presidência de Pernambuco, 20 de abril de 1880, 59º da Independência e do Império.
(a) ADELINO ANTONIO DE LIMA FREIRE
Algumas cidades, a exemplo de São Bento do Una e Serra Talhada, comemoram seus aniversários nas datas referentes à criação de suas vilas, ou, de forma geral, à sua emancipação política, já que na época do Império era essa a denominação das sedes municipais.

São Bento do Una, se tornou vila em 30 de abril de 1860, quando obteve emancipação de Garanhuns, e foi elevada a cidade pela Lei Estadual nº 440 em 8 de Junho de 1900. Serra Talhada emancipou-se de Flores em 6 de junho de 1851, quando tornou-se vila.
Seguindo esse pensamento, Pesqueira deveria ter comemorado, no último 13 de maio, 175 anos de idade, mas comemorou 131 anos de elevação à categoria de cidade em 20 de abril, como tem sido todos os anos.
Os mais desavisados hão de pensar que as duas importantes cidades citadas como exemplo são mais velhas que Pesqueira. No entanto, como explicado, a realidade é o contrário: Pesqueira, seja como vila ou seja como cidade, é mais antiga que ambas.

Na opinião de Gilvan Maciel (ver Crônicas da Pátria Pesqueirense, 2008, EDUFERPE), que é também a minha, a data magna de Pesqueira devia ser o 13 de maio e não o 20 de abril.

É importante lembrar que para Pesqueira jamais houve emancipação política. E, embora a sede da vila (sede do município) tenha sido transferida, o nome não fora mudado de imediato. Tudo que era assinado em Pesqueira era com o nome de Cimbres, esse permaneceu como o nome do município até 1913, quando por uma decisão local, passou a ser “Pesqueira”.

O assunto vila-município-comarca será tratado com mais ênfase posteriormente, pois é motivo de grande confusão entre a maioria dos leitores. Uma abordagem com mais detalhes, acredito, valerá a pena.

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A Velha Igreja de Cimbres: Adendo

Uma leitura mais atenta ao termo da instalação da Vila Real de Cimbres nos permite acrescentar algo à matéria postada sobre a igreja de Nossa Senhora das Montanhas. E com o apoio da obra do historiador Nelson Barbalho, podemos reforçar ainda mais a existência da construção em época remota já como matriz da freguesia.
Foto: Renata Echeverria

No volume 5 de sua Cronologia Pernambucana (FIAM, 1982), Nelson Barbalho faz crítica às afirmações do escritor Alfredo Leite Cavalcanti quanto ao título da primeira freguesia do sertão que, segundo o grande historiador de Garanhuns, teria sido a Freguesia de Santo Antônio, que data de 1700. Ainda segundo Cavalcanti, a criação da Freguesia de Nossa Senhora das montanhas teria sido “em conjunto com a do município de Cimbres, em 1762”. Essa afirmação está contida em História de Garanhuns. No entanto, Barbalho, especialista em história pernambucana, afirma: 

“Apesar de de Alfredo Leite Cavalcanti haver garantido “não haver existido em Cimbres nenhuma freguesia antes do ano de 1761”, renomados  historiadores pernambucanos  dizem o contrário e afirmam que a Freguesia de Nossa Senhora das Montanhas surgiu exatamente  na povoação de MONTE ALEGRE e no ano de 1692.”

Nelson Barbalho apoia-se ainda no Livro da Criação da Vila de Cimbres, que naquela época ainda não tinha sido publicado, por isso examinou o original do valioso documento do Século XVIII, “que não foi pesquisado nem visto pelo saudoso historiador Alfredo Leite Cavalcanti”:

“… em PESQUEIRA, ainda existe o Livro da Criação da Vila de Cimbres, às fls. tantas do qual vem o manuscrito original  da criação da vila cimbrense, datado de 4 de abril de 1762, em cujo texto não há a mínima referência à criação, naquela data, da freguesia de Nossa Senhora das Montanhas, que, àquela altura dos acontecimentos,  já era velha de setenta anos, enquanto a propalada freguesia de Garanhuns, nas mesma data, ainda estaria para nascer.”

Grifo de Nelson Barbalho.

Já no volume 8 da Cronologia Pernambucana (FIAM, 1983), e ainda corrigindo as informações de Alfredo Leite Cavalcanti, o autor diz:

“Não houve criação conjunta da freguesia de Nossa Senhora das Montanhas e da vila de Cimbres. Esta foi criada em 1762, aquela, em 1692. A referida Ata (da criação da Vila de Cimbres) é clara quando registra: “Enquanto à igreja não de presente que promover e se acha uma competente Matriz desta Vila””.
Nelson Barbalho tece ainda sua interpretação: “Dr. Gouveia Alvares já econtrou em MONTE ALEGRE uma sólida igreja-matriz, em pleno funcionamento e sem lhe apresentar problema algum a promover.”
Sobre a autoria da construção, encontramos na mesma obra: 
“… possuindo igreja-matriz erguida por iniciativa  dos padres oratorianos com ajuda de moradores das redondezas, principalmente membros da família NEVES CALDEIRA TORRES GALINDO.”
Grifo de Nelson Barbalho.

As críticas de Barbalho a Alfredo Leite Cavalcanti são justas. Ele fez afirmações equivocadas, carentes de provas, talvez por desconhecer ou não ter examinado em sua época a importante Ata constante no Livro da Criação da Vila de Cimbres, lamentavelmente. No entanto, isso não diminui em nada o brilho do maior historiador de Garanhuns, um homem de grande talento e perseverança, que lutou arduamente por sua cidade e pela preservação de sua história, obra que pode ser comprovada pelo seu História de Garanhuns (CEHM/FIAM, 1997 [2ª edição]).
As divergências entre as informações dos dois grandes historiadores merece um estudo mais aprofundado, o que será feito em momento oportuno. Garanhuns e Cimbres/Pesqueira têm histórias, de certa forma, interligadas no que diz respeito à Capitania de Ararobá.
Para finalizar, fico com a afirmação final de Nelson Barbalho sobre o assunto: Enquanto não forem apresentados elementos que provem o contrário, a Freguesia de Nossa Senhora das Montanhas, com sua velha igreja construída na então Monte Alegre, foi a primeira a aparecer no sertão de Pernambuco.
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