Coronel Candinho, o 2° Barão de Cimbres | por Marciana Nascimento

Cândido Xavier Pereira de Brito
O 2o. Barão de Cimbres
Uma personalidade da Pesqueira do século XIX que merece ser lembrada é o Coronel Cândido Xavier Pereira de Brito, o Barão de Cimbres, ou Coronel Candinho, como era conhecido entre os mais próximos.
O 2° Barão de Cimbres nasceu em 1822, tendo chegado a Pesqueira por volta de 1849, quando fixou residência na fazenda Caianinha, onde ficou até mudar-se para a Fazenda Gravatá, antes pertencente ao comendador Antônio de Siqueira Cavalcante, de quem o coronel comprou a fazenda na qual viveu até sua morte, na companhia de seus escravos e funcionários, entre eles, seu pajem que o acompanhava nas suas viagens e passeios, e Luíza, sua governanta, mais conhecida em Pesqueira pelo apelido de Caêta.
Coronel Candinho é um dos personagens mais fascinantes da história de Pesqueira. Diz-se que mesmo sendo detentor do título de Barão de Cimbres, tendo sido chefe do partido Liberal no município, juiz municipal e de órfãos e ocupando o posto de coronel comandante da Guarda Nacional, não se via nele traço algum de ostentação de orgulho diante de sua projeção local, sendo descrito por José de Almeida Maciel (no livro Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres) como um homem polido, de maneiras fidalgas, de espírito religioso e caritativo, de conversação culta, fluente, educada e agradável.
O 2° Barão de Cimbres era religioso e muito caridoso, sendo esta característica de sua personalidade notada principalmente no tratamento em relação aos escravos, pois relata-se que jamais maltratou ou deixou maltratar qualquer um destes. Também em relação a isso, é necessário lembrar que segundo Luís Wilson (em Ararobá, lendária e eterna), após a abolição, o Barão comprou a fazenda Cachoeira e dividiu a propriedade entre seus escravos pais de família de modo que cada um destes passou a ter seu próprio pedaço de terra.
Por ocasião de sua morte, em 10 de janeiro de 1894, ficou ainda mais evidente o espírito caritativo do Barão, quando em testamento deixou divididos os seus bens não só entre os parentes, porém também entre seus escravos e funcionários, além de ter doado ainda uma parcela de sua herança para a construção de um cemitério onde seriam enterrados os pobres.
Segundo diversas fontes, a maior parte de seus bens foram deixados a seu sobrinho José de Sá Pereira ou Juca, inclusive a fazenda Gravatá, a qual vendeu no mesmo ano de 1894. Lamentavelmente Juca teria se desfeito rapidamente de toda a herança deixada pelo tio.
Coronel Candinho foi um homem de grande importância local e politicamente ativo, porém, suas características que mais chamam a atenção dizem respeito a sua maneira de tratar o próximo, mostrando que o Barão acima de tudo era amante da terra onde viveu e de sua gente humilde. Uma prova incontestável do seu amor por esta terra, foi sua vontade manifestada em testamento, de ser enterrado na igreja de Jenipapo caso morresse em Gravatá. Como faleceu em Recife onde havia passado seus últimos dias tratando de sua doença, foi enterrado lá mesmo em sua cidade natal em um mausoléu no cemitério de Santo Amaro.
Para descrevê-lo, gostaria de usar as palavras do escritor Guilherme Auler, que na minha opinião o descreveu de forma brilhante:
“Religioso, temente a Deus e confiante na sua misericórdia divina; tradicionalista, amigo da sua terra, querendo ser sepultado onde vivêra; caridoso, amigo dos pobres e lembrando-se dos mesmos até que eles tenham uma última morada; senhor que premeia os seus alforriados escravos; bom amigo, bom parente, que a todos contemplou na sua generosidade derradeira”
Que homens como este nunca sejam esquecidos. 
20 de abril de 2013.
133 anos da elevação da vila de Pesqueira a cidade.

Por Marciana Nascimento
Fontes:
Livro Pesqueira e o Antigo termo de Cimbres, de José de Almeida Maciel
Livro Ararobá, lendária e eterna de, Luis Wilson
Livro Caboclos do Urubá, de Nelson Barbalho


Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

A Casa José Araújo, no singular

Poucas coisas lembram tanto o passado de Pesqueira quanto a Casa José Araújo, no singular mesmo; no singular porque foi a primeira e durante anos a única loja do que depois se tornaria uma grande rede.
Seu Bianor e seu Joaquim
José Araújo e Albuquerque, conhecido largamente como José Araújo, nasceu em 19 de março de 1870. Ele era filho do major Tomás Araújo e Albuquerque e dona Guilhermina Filoteia de Melo e casado com Maria Belas Magalhães, chamada de dona Santa.
Era uma época pré-industrial quando se sobressaia em Pesqueira o comércio, então seu motor de desenvolvimento. Muitas famílias vinham de outros lugares para cá e foi assim com a família de José Araújo, que migrou do Brejo da Madre de Deus para a promissora terra ao pé da serra do Ororubá, onde com espírito empreendedor ele abriu, em 1890, no dia de São José, sua lojinha de tecidos a qual deu o singelo nome de Casa José Araújo.
Como sabemos, a pequena loja era concorrente do Bazar Pesqueirense (esta de 1870, depois loja Tito Rego), e posteriormente da Loja Santa Águeda (de seu Cazuzinha Maciel), mas devia haver outras, pois era tempo de quando quase tudo o que se precisava tinha de ser feito a mão e individualmente.
A Casa José Araújo foi o empreendimento mais duradouro de Pesqueira, tendo funcionado ininterruptamente por 106 anos, de 1890 até 1996, quando fechou as suas portas. Foi mais que a Fábrica Peixe, que fechou logo após completar 100 anos. Foi mais de um século vestindo os pesqueirenses, enfeitando e equipando suas casas, já que depois produtos de outras linhas foram incorporados ao negócio: eletrodomésticos, decoração, etc.
Casa José Araújo em 1939
A marca José Araújo cresceu bastante, alcançou primeiro as pequenas cidades vizinhas de Pesqueira, depois parte do Nordeste e até alguns lugares no Sul do País. Àquela altura o nome já era literalmente plural: “Casas José Araújo”, e esteve presente, dentre outras cidades em: Maceió, João Pessoa, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Havia unidades em várias cidades do interior nordestino, em Recife havia em vários endereços. No total foram dezenas de filiais: um fenômeno.
Impossível não lembrar também das campanhas publicitárias produzidas pela Itaity Publicidades para a tevê, algumas tendo se tornado clássicos imortais como os comercias das bonecas de pano (“As coisas do meu Nordeste são bonitas de lascar…”), a do carnaval (“Eu quero a minha mãe, onde ela está?…”) e de N. Sra. da Conceição (“Senhora da Conceição, minha mãe, minha rainha…”). Houve também um comercial em homenagem aos 100 anos de Pesqueira, veiculado em 1980.
Atualmente o prédio de José Araújo ainda existe em Pesqueira, tanto a parte inicial, menor, quanto a parte ampliada, onde ainda, embora por baixo de painel de uma nova loja, existe o letreiro original no singular: “Casa José Araújo”.
É justo lembrar também da solidariedade da família Araújo, especialmente na pessoa de seu José Araújo Filho, que manteve durante décadas o lar dos idosos que levava o nome de sua mãe, além disso, o cuidado que ele tinha com o jornal Nova Era, dirigido pelo Pe. José Mariai. Embora já morando há muito tempo em Recife, seu Zé Araújo Filho nunca esqueceu de Pesqueira e de suas raízes.
Falar sobre a história local, sobre um lugar tão próximo de nós, faz com que nossas emoções se misturem a pesquisas e documentos históricos; em alguns casos se torna inevitável. Assim, é impossível falar de Zé Araújo e não lembrar de seu Joaquim e seu Bianor, creio que as duas figuras mais tradicionais em toda a história da empresa.
Seu “Joaquim da Loja”, como era chamado, dedicou impressionantes 66 anos de sua vida à empresa. No informe de Luiz Nevesii, em 1980 ele recebeu de José Araújo Filho uma homenagem pelos 50 anos de trabalho na loja, no entanto, como sabemos, ele permaneceu trabalhando lá 16 anos mais, até o fechamento. Seu Joaquim, falecido em 1º/02/2002, estaria hoje com 99 anos de idade.
Seu Bianor, não menos marcante que seu Joaquim, entrou em José Araújo em 1939, pouco depois do colega, formando a dupla mais duradoura e brilhante que o comércio de Pesqueira já viu. Creio ser esse um caso, senão único, bastante raro no País.
Busto de José Araújo, em Pesqueira
O atendimento, fui testemunha, era do jeito que o povo gosta, o cliente era sempre o foco do negócio, talvez por isso tenha alcançado tamanho sucesso. A loja era aconchegante, os vendedores simpaticíssimos, tenho a impressão que eram escolhidos a dedo. Todos bem alinhados, de camisa e gravata, sempre prontos a vender o melhor corte Zé Araújo. Sem dúvida os tecidos foram os produtos mais marcantes e o carro chefe da loja.
Passar em frente ao antigo prédio e não sentir saudade, só para quem não conheceu a loja Zé Araújo. Ainda hoje tenho na memória a figura dos vendedores junto aos cortes de tecido (especialmente Carlos, hoje taxista), do senhor que nunca soube o nome (pai de Laudivan, ex-colega do CERU), mas que mantinha a loja sempre impecável, e de seu Joaquim e seu Bianor na porta, mirando o tempo. Bons tempos.
Hoje a marca se mantém viva na Estrada do Arraial, em Recife, guardando o mesmo padrão de qualidade que lhe fez fama e proporcionando a alegria dos que tiveram o privilégio de conviver com a loja especialmente em Pesqueira, pois tenho certeza que para nenhuma outra cidade ela foi tão importante quanto. Contamos agora seus 123 anos. E que venha mais um século, pois seu Zé Araújo merece!
Pesqueira, 19/03/2013.
Dia de São José.

Marcelo Oliveira do Nascimento.
FONTES:
iSilva, José Maria da. José Araújo – Não se descarte a memória. In Pesqueira Notícias, de fevereiro de 1997.
iiNeves, Luiz de Oliveira. Caçuá de Lembranças. Ed. do autor/CEPE. Recife: 1981, pg. 43.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Vídeos de Dom Palmeira em 1996

Em maio de 2012 disponibilizamos um vídeo de Dom Manuel Palmeira, bispo de Pesqueira, celebrando uma missa na Catedral de Santa Águeda em 3 de março de 1996. Esse vídeo foi gentilmente cedido por Braz Araújo, do blog   http://www.tudopb.com, que agora cedeu também a segunda parte do vídeo.

Abaixo seguem os dois vídeos:

PARTE 1

PARTE 2

Nossos agradecimentos a Braz Araújo e ao blog   http://www.tudopb.com.


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Como era o Club dos 50

Uma breve introdução

Algumas pessoas têm me cobrado pela falta de imagens antigas no site. De fato sua presença dão bastante significado à causa do passado de Pesqueira, principalmente se forem acompanhadas dos comentários pertinentes.
Por essas razões dou início a essa série de matérias com foco em antigas fotografias. A intenção é mostrar como a cidade era e como está agora. Não quero de forma nenhuma condenar os agentes da desfiguração por qual Pesqueira tem passado, mas alertar a sociedade (aqui incluo todos: cidadãos comuns e autoridades) para o fato tão lamentável.
Para uma cidade que se diz histórica, o que se espera é que ela apresente a seus visitantes um mínimo de relíquias de seu passado. Sinceramente acho que um turista pode se sentir desapontado ao encontrar a cidade histórica repleta de construções modernas e sem sentido.
É bom lembrar que turista ou visitante que sai com boa impressão faz boa divulgação (com rima e tudo). E quem ganha com isso: todos que vivem aqui e daqui.
Mas também, graças a Deus, nem tudo é mau, pois temos bons exemplos de preservação, como veremos posteriormente.
Assim, depois dessa pequena apresentação, vamos à primeira matéria da série.
Como era o Club dos 50

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A história não escolhe partido, religião, meio social ou etnia. O Club dos 50 (sem “e” mesmo) foi fundado nos anos 30 por Francisco Roberto Matos1e funcionou até sua desativação numa casa na rua Duque de Caxias que pertenceu a José Pita. Sua fachada era ainda do século XIX, mas foi reformada ao receber o clube. No topo foi feito o marcante letreiro, que, sem dúvida nenhuma, chamava bastante a atenção. Nos anos 80 o prédio foi remodelado para ser usado como comércio, o letreiro desapareceu, restou na calçada o ladrilho que formava o nome. Hoje, nem isso resta. A fachada do clube não era a original da construção, mas já fazia parte do cenário de Pesqueira há 60 anos.
Amados por uns, odiado por outros, o fato é que o Club dos 50 perdeu infelizmente o último vestígio de sua existência material, ficou agora apenas na memória de alguns e nas velhas fotografias.
Fontes:
1MACIEL, Gilvan de Almeida. Club dos 50, in Crônicas da Pátria Pesqueirense. EDUFERPE. Recife: 2008, p.63.


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Os 100 Anos da Chegada de Dr. Lídio Paraíba

Dr. Lídio Paraíba

Dr. Lídio Paraíba nasceu em Uruguaiana-RS em 5 de junho e 1890. Formado em medicina no Rio de Janeiro em 1911, chegou a Pesqueira no ano seguinte. Em resumo, em 2012 completa-se 100 anos de sua chegada à terra que não o viu nascer, mas que ele adotou como sua talvez como nenhum outro cidadão jamais chegaria a fazer.

A Pesqueira de 1912 era uma progressista povoação. Contava já com as fábricas Peixe e Rosa, duas indústrias bastante desenvolvidas, e um comércio famoso em toda a região. Àquela altura a cidade já contava também com a Casa José Araújo (fundada em 1890) e com o Bazar Pesqueirense (depois O Barateiro) do pai seu Tito Rego, dentre outros estabelecimentos. Embora um centro importante , tanto comercial como industrial (já contava inclusive com uma linha de bondes!), a cidade era ainda um lugar de urbanismo precário, com ruas de terra e sem energia elétrica (que chegaria em 24/12/1913). A saúde pública praticamente não existia, tamanha a ausência de estrutura, não havia hospital ou outro centro de saúde com competência suficiente. Foi esse o cenário que Dr. Lídio encontrou ao descer de um dos vagões da Great Western, atendendo o convite feito pelo farmacêutico Xavier de Andrada.
Dr. Lídio atendeu seus primeiro pacientes na Farmácia Santos, de Manoel Cristóvão dos Santos, depois se instalou no então Largo da Matriz (hoje Praça Dom José Lopes) e por último na antiga rua 15 de Novembro (hoje rua Dr. Lídio Paraíba, em sua homenagem), onde por fim fixou seu consultório.
Para dr. Lídio gente era gente e ponto final: rico, pobre, preto, branco, jovem, velho, cristão ou ateu. Conta-se que ele nunca se negou a atender qualquer um que fosse, inclusive sem se importar com pagamento. Ele não parava de passar pelas ruas empoeiradas de Pesqueira no seu automóvel guiado pelo motorista Pedro Miro, sempre a caminho de atender algum pesqueirense enfermo, em qualquer bairro, da Pitanga ao Prado, a qualquer horário do dia ou da noite.

Ele foi o médico de Pesqueira durante meio século, dedicou quase toda sua vida a ela e a seus cidadãos. Foram incontáveis os pesqueirenses que passaram por suas competentes mãos. Foi em Pesqueira também que ele realizou um grande feito, um sonho imenso que se torno realidade: a construção do hospital que hoje leva seu nome, do qual foi diretor por 20 anos.
Essa pequena nota, insignificante em tamanho, mas realmente sincera, dedico a um homem que dedicou uma vida inteira a um lugar, que o amou despretensiosamente como se fosse dele. Naquele 17 de fevereiro de 1963 Pesqueira teve com certeza um pedaço seu enterrado.
Homenagem maior lhe fez a historiadora Eulina Monteiro Maciel, de Jaboatão dos Guararapes, com o livro “Tributo ao Médico Dr. Lídio Parahyba – Uma voz na Assembleia Legislativa”, obra que brevemente terá lançamento em Pesqueira. Uma jaboatanense fez então o que nenhum pesqueirense foi capaz de fazer. No entanto, o que importa de fato é que Dr. Lídio não foi esquecido.
Pesqueira, 31/12/2012.
Em memória de Dr. Lídio Paraíba.

Marcelo Oliveira do Nascimento.
Fontes:
WILSON, Luís. Ararobá Lendária e Eterna. CEPE/Pref. De Pesqueira. Recife: 1980.
SANTOS, Luiz Cristóvão dos. Doutor Lídio – O médico do Sertão. Matéria escrita para o Diário de Pernambuco por Luiz Cristóvão dos Santos. Data não identificada.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

A Senzala de Pesqueira

A mão-de-obra escrava era presença certa nas fazendas do século XVIII e XIX (antes da Abolição de 13 de maio de 1888) e com Pesqueira não ocorreu diferente. Até alguns homens de caridade, como era o caso do Barão de Cimbres, dispunham de alguns escravos nem que fosse para atividades domésticas, para manutenção da propriedade, companhia, etc.

A senzala do Barão ficava junto à residência na fazenda Gravatá (hoje pertencente à família Didier). Não conheço outra fazenda que a senzala fique assim localizada em relação à casa grande. É sabido que ele nunca maltratou qualquer um dos escravos e que também costumava assistir aos seus festejos da varanda da casa i. Alguns dos seus serviçais foram citados em seu testamento, e deles, apenas Caêta, a governanta, não era escrava (1). Esse tratamento diferenciado era exceção, seja qual fosse o lugar.

A senzala de Pesqueira deve ter sido construída por volta de 1800, pois em 1801 Manuel José de Siqueira, fundador da primitiva fazenda, já estava estabelecido, casado e já com um filho nascido*. Da construção não encontramos hoje nenhum vestígio, no entanto até algumas décadas atrás ainda havia uma fração dela. O lugar em certa época foi usada como depósito de lixo pela prefeitura (2). Essa fração restante pode ser vista em velhas fotografias do centro de Pesqueira datadas dos anos 20. Em outra, datada de 1911, ela aparece ainda inteira, no entanto pelos fundos. Ela ficava na “rua de baixo”, bem em frente à Casa da Câmara e Cadeia, lugar estratégico para que o proprietário pudesse vigiar o comportamento dos escravos (2), isso se considerarmos que a Casa da Câmara era mesmo originalmente a casa grande da fazenda, tese da qual sou defensor, como já mostrei em outras matérias.
A senzala, por completo, ficava onde hoje estão os números 100 e 112 da rua Cardeal Arcoverde e seguia o padrão encontrado em várias propriedades espalhadas pelo País: uma tira de pequenas casas com algumas portas e janelas de frente coberta por duas águas, construção geralmente bastante ordinária, incompatível com o restante da fazenda. Esse padrão pode ser visto inclusive na fazenda Gravatá, no entanto creio que o material usado neste caso era de qualidade acima da média, pois a senzala continua de pé até hoje, assim como a casa grande do Barão.
Em Pesqueira havia ainda uma senzala de padreação e o casebre de Congo, o reprodutor da fazenda (3). Estas informações são do Pe. Frederico Maciel, que fez uma tentativa (não sei ao certo se bem sucedida ou não) de reconstituir a Pesqueira de mil oitocentos e pouco.
Marcelo Oliveira do Nascimento.
Fontes:
  1. WILSON, Luis. Ararobá, Lendária e Eterna. PMP/CEPE. Pesqueira: 1980.
  2. VALENÇA, Eduardo. Comentário sobre a Casa Grande. Disponível em http://pesqueirahistorica.blogspot.com/2011/12/comentario-sobre-casa-grande.html
  3. MACIEL, Frederico Bezerra. Editora Universitária da UFPE. Recife: 1982.
iNASCIMENTO, Marciana. A Casa Grande da Fazenda Gravatá. Disponível em http://www.pesqueirahistorica.com/2012/07/a-casa-grande-da-fazenda-gravata-por.html
*O primeiro filho de Manuel José de Siqueira nasceu em Pesqueira em 1801. Evidentemente naquele ano ele já estava casado.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Associação dos Reservistas de Pesqueira promove exposição fotográfica

No último fim de semana, dias 26 e 27 de outubro, na XXIII Festa dos Ex-alunos, o pessoal da Associação dos Reservistas de Pesqueira montou uma exposição com fotos antigas da cidade. Fomos convidados oficialmente a participar com a divulgação do site e do primeiro volume do Pesqueira Histórica (do qual os últimos exemplares disponíveis foram esgotados).
A exposição foi inquestionavelmente um sucesso. Ficou claro não só pelo grande número de visitantes mas também pela expressão estampada no rosto de cada um ao por os olhos nas antigas imagens. Pela idade das fotografias, a maioria das pessoas mirava um passado não vivido, mas bastante revelador, onde figurava uma Pesqueira desconhecida, bastante diferente da atual. Para estes era um olhar de descoberta. Para outros, os mais vividos, era um olhar de reencontro com uma Pesqueira da infância ou da juventude, que foi de certa forma deformada pelo tempo.
O evento foi a prova de que o passado consegue encantar qualquer pessoa independente da idade. O que faltava era dar esse encanto aos pesqueirenses, o que o pessoal da ARP fez de forma brilhante. As fotos foram bem escolhidas, abordando diversos temas e épocas; e bem apresentadas, com legendas explicando o motivo retratado e a data. Todo o trabalho foi feito com o esforço particular dos membros da Associação, que se encarregaram de buscar as fotos em arquivos pessoais, identificá-las, copiá-las e prepará-las para ficarem apresentáveis. Quem esteve lá pôde comprovar que o resultado ficou excelente.
O Pesqueira Histórica fica muito grato pela oportunidade de participar deste momento e parabeniza a equipe da Associação dos Reservistas de Pesqueira pela coragem e pela dedicação à sua missão. Parabéns especialmente, nesta ocasião, pelo evento promovido. Se a cidade pudesse falar com certeza estaria agora agradecendo emocionada pela bela demonstração de amor.
Marcelo Oliveira do Nascimento.

Alguns momentos do evento (clique nas imagens para ampliar):


Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Ipanema e a Antiga Fazenda Barra

A história de Ipanema começa em 1671. Em dezembro daquele ano o sítio Barra integra a sesmaria doada a Bernardo Vieira de Melo (o velho), Antônio Pereira Pinto e Manuel Vieira de Lemos. Era uma grande porção de terra que ia da Mata ao Sertão, atingindo o centro e o Sul do Agrestei. O centro da sesmaria era a serra do Opi, onde hoje fica a atual cidade de Jupi: “junto ao riacho Lima, correndo para o Sul até a serra do Bocú e da terra do mesmo riacho Lima correndo pelo rio de Ipojuca a Lima de uma banda e de outra até a serra de Tacoaty.”
Antônio Pereira desistiu das terras e as doou a Vieira de Melo, assim como Vieira de Lemos, que também as cedeu, exceto o sítio à beira do Ipanema, onde resolveu se fixar. Isso torna a antiga fazenda Barra a primeira propriedade rural da região de Pesqueira, excetuando-se os currais de João Fernandes Vieira. Podemos dizer então que em dezembro passado a velha fazenda Barra completou 340 anos! Na mesma época era instalada a missão de Ararobá pelo Pe. João Duarte do Sacramento exatamente no lugar que mais tarde viria a ser a vila de Cimbres.
O sítio Barra ganhou esse nome por nele ficar localizada a barra dos rios Ipaneminha e Frecheira, formando o rio Ipanemaii, que depois “rebatizaria” a própria localidade.
Em fins do século XVIII entra na história do sítio Barra o famoso capitão André Cavalcanti, que também assinava André Arcoverde, bisavô no notável Cardeal. Naquela época ele adquiriu o sítio a José Vieira de Lemos, onde veio então a residir. Não consigo precisar a data, mas creio que foi por volta de 1796 ou 1797, conforme informações de José de Almeida Macieliii. Com certeza, em 1809, há anos ele já vivia lá, pois foi na sua fazenda que faleceu sua esposa, dona Úrsula Jerônimaiv
Foi em 1909, com a passagem dos trilhos da antiga Great Western, que o sítio Barra teve seu nome mudado para “Ipanema”v, o mesmo nome da estação ferroviária construída.
Não encontro, até o momento, nenhuma informação precisa sobre a localização da antiga casa grande da fazenda. Em conversa com alguns moradores de lá, percebi controvérsias. Sobre a capela, os moradores mais velhos afirmam que a existente é a original. A informação tem sentido, pois Zeferino Galvão (em obra já citada), afirma que em 1920 Ipanema tinha 2 casas, 20 moradores e a capela de São Joaquim. Ora, que sentido há na construção de uma capela pública por parte da Igreja numa comunidade na época tão pequena? De fato ela devia vir da fazenda, tendo sido então uma capela particular.
Sobre o seu orago, Zeferino Galvão afirma que era São Joaquim (em 1920), mas o atual, como é notório, é N. Sª da Conceição. Em conversa com Pe. Eduardo Valença fiquei sabendo que houve reforma na capela em alguma época e que não há quaisquer informações sobre a existência da imagem de São Joaquim, fato comprovado pela fotografia do altar feita por Roseane Brito.
O povoado de Ipanema fica num lugar muito agradável, favorecido pela natureza ao redor. O povo é simpático e hospitaleiro. O lugar tem muita história, teve uma importância política muito grande no século XIX, lá ainda existem algumas casas antigas bem conservadas. Falta divulgação e cuidado, falta reconstruir a velha estação ferroviária, reativar a linha entre Sanharó e Mimoso para um passeio histórico passando por lá. Para alguns uma grande besteira, para outros um sonho enorme.
Por Marcelo Oliveira do Nascimento.

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Agradecimentos a Roseane de Carvalho Brito pela fotografia do altar da capela.
FONTES:
iBARBALHO, Nelson. Caboclos do Urubá. FIAM/CEHM. Recife, 1977. Pg. 40.
iiGALVÃO, Zeferino. Antologia. Governo de PE. Recife, 1924. Pg. 99.
iiiMACIEL, José de Almeira. FIAM/CEHM. Recife, 1980. Pg. 137.
ivFonte citada no item anterior.
vZeferino Galvão, fonte já citada.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Nossa Senhora das Montanhas

Imagem cedida por Pe. Eduardo Valença

Dentre vários assuntos polêmicos a respeito da nossa história está a construção da igreja de Nossa Senhora das Montanhas em Cimbres. Não vou nem entrar na questão da reforma/reconstrução de 18431, não no momento. O que quero falar agora é sobre o início de tudo, da construção original.
Conforme eu mesmo já registrei2, alguns historiadores afirmam que a igreja foi construída originalmente por Lourenço das Neves Caldeira e sua esposa, que apoiaram os padres da congregação de São Felipe Neri nesta obra. No entanto nenhum deles dá data exata da construção.
Altar da Matriz de Cimbres
Sabemos que em 1680 já havia em Monte Alegre (a futura Cimbres) culto a Nossa Senhora das Montanhas, conforme o comentário de José Antônio Gonsalves de Mello no volume 6 dos Anais Pernambucanos de Pereira da Costa, falando sobre as terras de João Fernandes Vieira:
“Que essas “novas terras” deviam abranger a região do Ararobá pode concluir-se pelas extensas propriedades que ele ali possuía já no ano de 1680, onde tinha como seu representante o Capitão Manuel Caldeira Peixoto, conforme documento datado da Aldeia de Nossa Senhora das Montanhas 28 de dezembro de 1680: Tombo dos bens da Congregação do Oratório do Recife fls. 187v-188.”
Temos também um registro do 2o. Cartório de Garanhuns (Livro 11, fls. 80):
“Saibam quantos este público instrumento de carta de alforria virem como no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e vinte e sete anos nesta Capitania do Ararobá no sítio da igreja de Nossa Senhora das Montanhas missão da dita capitania onde eu tabelião fui vindo aí perante mim tabelião…”
A primeira missão fundada pelo Pe. João Duarte do Sacramento em Pernambuco foi a de Limoeiro em 1662, onde com o a poio do governador Brito Freire, que era seu amigo pessoal, construiu a primeira igreja do Agreste3. A igreja da missão de Ararobá foi então construída posteriormente.
Agora a excelente informação do próprio Francisco de Brito Freire, que era também, além de governador, escritor:
“E para habitarem (os indígenas) na vizinha dos nossos, lhes fizemos duas povoações novas, e Igrejas em ambas, com seu modo de governo, nomes e varas de Ouvidores, e de Juízes, entre si mesmos. Porque cometendo algum culpa digna de demonstração para escramentarem os mais, recebam uns, dos outros, o castigo, e só da nossa mão os favores. Batizados, e assistidos do Venerável Padre João Duarte do Sacramento, que pelo imenso fruto de copiosas almas, é assim aclamado do aplauso universal, como Apóstolo do Brasil.”
Esse trecho de História da Guerra Brasílica (de 1675) é uma transcrição feita por Nelson Barbalho (O.b. Cit. p.77-78). As duas povoações citadas são as missões do Limoeiro (hoje a cidade de mesmo nome) e de Ararobá (hoje Cimbres). Brito Freire deixou claro que a construção da igreja de N. S. das Montanhas se deu em sua época. Ora, sabendo que ele foi governador de Pernambuco entre 1662 e 16644, então é muito provável que a igreja primitiva tenha sido construída nessa época! Isso seria a comprovação de um erro em relação ao ano da fundação da missão de Ararobá, que muitos acham (inclusive eu) ter sido em 1669. Em 1665 Brito Freire já não estava mais no Brasil, e sim em Portugal! Essa informação pode render muito ainda, mas ficará para um momento mais oportuno.
Agora sobre a invocação a N. S. das Montanhas.
Primeiramente preciso reconhecer que jamais tinha ouvido falar sobre qualquer lenda referente à invocação da matriz de Cimbres, mas é Pereira da Costa5quem nos conta como segue:
“A construção do templo, e da sua invocação, se prende uma lenda regional, do encontro de uma linda imagem da Virgem, por uma índia, e que levando-a para sua casa, desaparecera, sendo depois encontrada no mesmo local; e que repetido o fato, foi resolvida a construção de uma capela no próprio sítio, o que foi feito, e colocada a imagem no seu altar, assim ficou e se conserva até hoje, vindo daí a sua invocação de N. S. das Montanhas.”
Não sabemos se a imagem do orago da matriz de Cimbres é ainda a original, mas é bastante diferente das de Santa Águeda e N. S. Mães dos Homens, de Pesqueira. Estas são grandes e imponentes, ambas do século XIX. A de Cimbres é simples, delicada e tão pequenina que quase desparece no topo do altar, mas, maior é que qualquer outra quando o assunto é história e tradição.
Marcelo O. N.
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FONTES:
1 COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Anais Pernambucanos – Volume 6: . 2.ed. Recife: Fundarpe, 1984. p. 239.
2Pesqueira Histórica – Volume 1. Clube de Autores, 2012.
3BARBALHO, Nelson. Cronologia Pernambucana – Volume 5. FIAM/CEHM. Recife: 1982, p. 77.
4ANTUNES, Cristina. http://www.brasiliana.usp.br/node/354 , acesso em 25/08/2012.
5Ob. cit. p. 239.

Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

A Casa Grande da Fazenda Gravatá | Por Marciana Nascimento

A fazenda Gravatá fica localizada a aproximadamente 4 quilômetros do centro da cidade de Pesqueira e foi fundada em 1818 pelo sargento-mor Antônio Cavalcanti de Albuquerque Melo em terras encravadas na propriedade da fazenda Poço Pesqueiro, pertencente a seu tio Manuel José de Siqueira, capitão-mor fundador da cidade. A casa grande (Figura 1), cuja fachada dizem possuir 75 metros de extensão, conta com vários cômodos (todos amplos), incluindo três salas, oito quartos, copa e cozinha e uma capela interna. Na propriedade havia ainda uma cisterna imensa, um engenho de rapadura, uma bolandeira utilizada para descaroçar algodão e um açude (1).


Figura 1
Foto: Nascimento, 2011

Alguns anos depois a propriedade da fazenda passou para o comendador Antônio de Siqueira Cavalcanti, que era da mesma família, até que em 1874 a mesma foi vendida ao major Cândido Xavier Pereira de Brito, o caridoso Barão de Cimbres. Seu Candinho, como era conhecido, era um homem de atitudes honestas e religioso. Dizem que nunca maltratou, ou deixou maltratar, qualquer dos seus escravos. O que pode ser considerada uma prova da sua convivência tranqüila com os escravos é o fato de ter mandado construir uma nova senzala ao lado da casa grande, para que os escravos ficassem perto da residência. Diz-se que o Barão, assistia com satisfação os festejos no pátio da casa, organizados todos os anos pelos escravos que celebravam a devoção a Nossa Senhora, rezando a novena e fazendo grande festa no último dia do mês de maio. Esta celebração era compartilhada inclusive por muitos vizinhos moradores das redondezas atraídos pelos festejos (1).


A casa encontra-se atualmente bem conservada, inclusive a senzala ao lado, que contém poucas avarias (Figura 2). Diz-se que até as portas e janelas são ainda as originais.


Figura 2
Foto: Nascimento, 2011

Depois da morte do barão, em 1894, a fazenda passou, por herança a seu sobrinho José de Sá Pereira, que era conhecido por Juca. Logo em seguida a propriedade foi vendida ao cel. Antônio Cordeiro da Fonseca e, após sua morte, nos anos 20 do século passado, passou por compra para a propriedade de Praxedes Didier, estando em posse da família até os dias de hoje.


Por que deve ser restaurada e tombada
A Casa da Fazenda se encontra em bom estado de conservação, porém há sinais superficiais de deterioração em alguns pontos da edificação. É necessário se considerar a restauração e o tombamento da Casa Grande da Fazenda Gravatá porque seu  valor histórico é incontestável, sendo uma das últimas construções da região, se não a última, que preserva ainda esta estrutura típica de fazendas do século XIX, mantendo inclusive ainda a existência da senzala.


Teoria da Restauração de Camillo Boito
Para restaurar o referido patrimônio, poderia ser aplicada a teoria da restauração de Camillo Boito, que consistia em preservar prioritariamente o valor histórico do edifício. Para o teórico, o restauro era considerado uma opção a ser evitada, pois ele defendia que a preservação da edificação deveria ser mantida ao longo do tempo, evitando assim que esta viesse às ruínas. A restauração era vista por ele como um ato de intervenção que somente seria usado quando extremamente necessário, após os procedimentos que garantissem a manutenção do monumento histórico. No caso de ser necessária, Boito defendia que deveriam ser preservadas e evidenciadas as características da obra original, de modo que ficasse em evidência a intervenção, para que se distinguisse claramente a obra antiga e o restauro, já que o teórico priorizava o valor documental das construções.


Marciana Nascimento.


Referências Bibliográficas:
(1)   WILSON,Luís. Ararobá,Lendária eEterna. Pesqueira:Prefeitura Municipal.1980.

Matéria adaptada do trabalho acadêmico “Bens Patrimoniais da cidade de Pesqueira” do componente curricular Preservação do Patrimônio Cultural (PPC) ministrada pela Professora Formadora Viviane Castro e pela Tutora Martha Queiroz do curso superior de Tecnologia em Gestão Ambiental- IFPE ( fevereiro/2012).


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