Pesqueira Histórica em 2014

Marcelo do Nascimento.

Manter um site como o Pesqueira Histórica sozinho não é fácil, especialmente quando se trata de uma atividade secundária e sem fins lucrativos. Meus afazeres profissionais são outros, como bem sabem os que me conhecem pessoalmente. As matérias publicadas são, quase em sua totalidade, produzidas e editadas por mim, com raríssimas exceções. Aproveito, assim, para pedir desculpas, sobretudo, pelos erros de digitação (ou até de ortografia) que vez ou outra aparecem como fantasmas, sem que nos demos conta.
Durante esses anos que se passaram desde a estreia do site, consegui publicar pelo menos uma matéria por mês, o que, evidentemente, é muito pouco para o movimento sem freios da internet. As pessoas, creio, se prendem a determinados endereços no mundo virtual quando eles lhes oferecem mudanças constantes. Parece que os que estão em repouso estão, de certo modo, “excluídos” da rede.

Neste ano de 2014, pretendemos alimentar o Pesqueira Histórica não apenas com matérias soltas, mas com fragmentos de livro de meu punho, atualmente em processo de escrita. É claro que existirão as exceções e, sempre que possível e necessário, artigos exclusivos continuarão a aparecer.
Os motivos, em parte, vêm do que já explicamos no começo: falta de tempo ou mão de obra para manter o site com matérias exclusivas. O livro que agora está em produção têm consumido muitos minutos do meu tempo livre, o que certamente sacrificou muitas matérias inéditas com potencial para publicação.
Desta forma, seguindo conselhos, decidi, pelo menos durante esse ano, e talvez o próximo, editar o Pesqueira Histórica principalmente com fragmentos do meu livro inédito. Com isso deve ser favorecido o volume de publicações do site, já que haverá apenas um foco de trabalho.
Os fragmentos citados, serão adaptados, editados para tentar chegar ao máximo de simplicidade, mais compatível com a leitura na tela do computador. Tais artigos só poderão ser lidos por completo no livro, quando este for editado.
Também pretendo retornar com o Dicionário Histórico Pesqueirense, desta vez inserido no próprio Pesqueira Histórica, o que facilitará o acesso. Por falar nisso, o dicionário, que ora funciona on line, se tornará livro assim que possível. São muitos projetos para duas mãos apenas, mas eles vão se realizando aos poucos. Estamos já com o segundo volume do Pesqueira Histórica concluído, livro que deve ser lançado ainda esse ano. Fora o livro que estou escrevendo, que deve ser lançado em 2016, tenho pelo menos uns cinco em mente. Um deles, deve aparecer em 2018, para marcar os 100 anos da Diocese de Pesqueira. Daí por diante não consigo fazer previsões, mas é certo que os trabalhos impressos não deixarão de surgir.
Também temos um projeto de catalogar o patrimônio histórico de Pesqueira a fim de guardar o documento para as gerações futuras e até mesmo para pesquisadores ou curiosos do tempo atual. Parece uma tarefa simples, mas em alguns casos requer muita pesquisa de campo e bibliográfica. Se um trabalho como esse tivesse sido feito décadas atrás, hoje seria muito mais fácil entender nossa história. As pessoas mais antigas estão desaparecendo e enterrando com elas muitas histórias e informações sobre as velhas casas de Pesqueira.
Aproveito para agradecer a todos que têm acessado o site nestes últimos anos. Sei que são poucos mas são fieis. Cativar leitores para esse segmento da literatura não é nada fácil, não só pelo pouco gosto que atualmente se tem pela leitura, mas também pela maioria das pessoas encararem a história como um assunto monótono, massante. Por isso, cada leitor, para mim, é muito importante. Ser lido por alguém é sempre um privilégio. Assim que o livro Pesqueira Histórica – Volume 2 estiver publicado, vamos inventar alguma promoção a fim de presentear alguns leitores.
Há muito tempo, não há um só dia no qual eu não leia, pesquise ou escreva algo sobre a história de Pesqueira e Cimbres. É algo que me completa e da qual não abro mão. Espero continuar, durante este ano e os próximos, compartilhando um pouco desse universo com todos vocês.


Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

O Museu do Doce

Por Marcelo do Nascimento
No último 7 de dezembro, às 4 horas da tarde, num evento magnífico, de organização impecável, foi entregue a Pesqueira o Museu do Doce, um incrível acervo de máquinas, fotografias e documentos que contam a história das antigas fábricas de doce de Pesqueira, sobretudo da Fábrica Rosa, que, fundada pelos irmãos Didier, passou para as mãos do sr. Severino Paixão em 1975, que a manteve funcionando até 1996, quando a empresa completava 90 anos de existência.
Naquele mesmo dia, muitos blogs produziram suas matérias, mas o Pesqueira Histórica se absteve de fazer o mesmo naquela data pelo evento ter sido, merecidamente, coberto pelos veículos mais populares da cidade. E, sobretudo, não era nosso interesse produzir simplesmente mais uma matéria entre tantas.
Na abertura do evento, o Pe. Marconi, pároco da matriz de Santa Águeda, resumiu, em poucas palavras, tudo o que penso sobre a História. Ele dizia que o museu não era algo que serviria apenas para admiração de objetos que remontam o passado de Pesqueira, mas também como exemplo para a geração atual e para as que virão, um exemplo de atitude, um exemplo concreto do “fazer”. E é disso que precisamos, não tenho dúvida.
Particularmente falando, sempre encarei a História como uma ciência que ensina, com os fatos do passado, a vivermos melhor no nosso tempo. É da nossa própria história que tomamos lições e exemplos do que devemos fazer, e também do que não devemos fazer, para construirmos um futuro sem erros. Na ignorância, mais presente no ser humano do que deveria, a história é apenas um amontoado de coisas velhas, empoeiradas e inúteis. Pobre do homem que não consegue ver na sua própria história o caminho para a evolução. Está aí a própria Pesqueira, que vive dias tão difíceis, mas que não consegue olhar para trás e tirar qualquer lição das experiências por ela vividas.
Antes não precisássemos do Museu do Doce, melhor seria ver a Rosa, a Peixe, a Tigre, a Cica, a Maravilha, todas funcionando e empregando pesqueirenses, como foi durante um século inteiro. Mas, se não podemos ter mais esses empreendimentos, o melhor a fazer é preservar suas memórias e usá-las como exemplo. Pior seria abandonar o pouco que restou, com isso não se ganharia nada. E, diga-se de passagem, foi, em parte, por causa de pensamentos como esse que, que Pesqueira perdeu a maior parte de seu patrimônio histórico.
Hugo Paixão, arquiteto, filho do Sr. Severino Paixão, levou à frente a empreitada de montar o museu. Aproveitou o maquinário restante da Rosa e buscou reunir material da Peixe, Recreio e até da Tambaú. Reuniu tudo num espaço dentro do mais que centenário prédio da Rosa. Mas não fez de qualquer jeito, muito pelo contrário. Tudo foi organizado de forma didática, com identificação e com muita beleza. Por sinal, tudo no museu é de extremo bom gosto. Não consigo imaginar, dentro deste seguimento, nada melhor do que lá vi!
A história de Pesqueira está há anos abandonada. Faz muito tempo que não se vê uma atitude em sua defesa e preservação. Agora é preciso reconhecer o trabalho de Hugo Paixão, cujo sobrenome traduz perfeitamente o que ele sente pela história da sua fábrica Rosa, sua e de nós todos, pois agora não há como não termos a antiga fábrica para nós também. Sabemos que não é fácil fazer cultura neste País, por isso imaginamos o trabalho que foi demandado na empreitada do museu. Talvez nenhuma outra pessoa tivesse conseguido o que ele conseguiu: juntar material, fazer o projeto, buscar apoio… É inacreditável como ele conseguiu!
No evento, destaco o levantamento histórico feito pelo Dr. Eduardo Paixão, que teceu palavras brilhantes sobre a indústria pesqueirense e sobre o Sr. Severino Paixão, seu pai. Foi uma aula de como bem contar uma história.
Outro ideia fenomenal foi a confecção de objetos alusivos à fábrica Rosa: camisetas, placas e miniaturas de tachos, reproduções dos originais existentes no museu.
Severino Paixão emprestou seu nome ao museu, nada mais justo, já que foi ele quem deu fôlego ao empreendimento nos anos 70. Se não fosse ele, talvez a Rosa não tivesse durado tanto e talvez não tivéssemos o museu, já que foi dele a ideia de construí-lo.
A vida em democracia nos obriga a ver, ler e ouvir todo tipo de opinião, nem sempre como gostaríamos. Dessa forma, há e haverá críticos de tudo, inclusive de atitudes como as que resultaram na inauguração do Museu do Doce. No entanto, cultura é cultura, isso não se pode negar. Termos o museu é um privilégio, vermos peças que nem imaginávamos que ainda pudessem existir nos causa o sentimento de abrir a arca de um tesouro que há muitos anos estava escondida.
Numa época na qual os vestígios do passado de Pesqueira estão desaparecendo, ver o acervo da história das fábricas locais reunido de forma tão segura e organizada, nos enche de alegria e esperança de que poderemos ter dias melhores.

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Os Suíços de Papagaio

Foto: Eri Martins

As informações mais antigas sobre Papagaio, hoje distrito de Pesqueira, dizem respeito a Constant Duvoisin, natural de Granson, na Confederação Helvética. Migrando para o Brasil, o suíço instalou-se primeiro em São Bento, depois se mudou para Papagaio, onde se casou, formou família e viveu até sua morte em 26 de setembro de 1882.
Algumas notas genealógicas soltas na internet indicam que ele teria vindo para o Brasil em 1859, mas não encontramos documentos que validem tal informação. O certo é que, em certa época, o senhor Duvoisin comprou a fazenda Papagaio, propriedade que leva o mesmo nome do rio que corre naquela região. Não sei se na época da compra já se tratava de fazenda constituída ou apenas uma porção de terra que foi por ele transformada em fazenda.
Provavelmente, por volta de 1866, ele se casou com Maria Rita da Conceição Carlos. Em 1867 e 1869, nasceram na fazenda Papagaio respectivamente Henrique Carlos Duvoisin e Inês Carlos Duvoisin, ambos filhos do casal. As crianças foram registradas no Consulado Suíço, em Recife, recebendo a nacionalidade do pai. Os dois foram assim, suíços nascidos em Papagaio. Estas informações foram anotadas por José de Almeida Maciel (Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres. CEHM/FIAM, 1980), que descreveu inclusive alguns traços de dr. Constâncio, como ele era conhecido. Segundo o autor:
“Geralmente chamado Doutor Constâncio (não ficou provada a obtenção do diploma), falava vários idiomas e dispunha de conhecimentos aprofundados de Medicina. Redação correta e impecável caligrafia, tudo isto o reputava um afeiçoada das letras.”
Como se percebe, ele era homem diferenciado na época e lugar em que viveu. 
A fazenda Papagaio era bastante extensa e equipada, conforme as mesmas notas de José de Almeida Maciel:
“[…] abrangia um âmbito de 240 braças de largura com o comprimento desde a estrada que vem de Covas até encontrar terras de Riachão (São Bento). Continha casa de vivenda e três outras: de escola, de bolandeira e de prensa; cercados currais e açude. Foram anexadas outras partes adquiridas de Pantaleão Batista Bruno (fazenda Covas), João Gabriel (Papagaio de Cima), Justino e Marcos (Marimbas), Francisco de Goes, José Maurício, Inácio Camilo; uma parte em Salobro e duas outras, Cascavel e Boa Vista, no município limítrofe de São Bento.”
O patriarca Duvoisin deixou, segundo seu inventário, 130 cabeças de gado, 8 cavalares, 80 cabruns e 60 ovelhuns. No inventário constava ainda uma farmácia, mercadorias de estivas, molhados, miudezas e ferragens. Ocorre que o suíço era comerciante. Inclusive, um compatriota eras seu correspondente comercial em Pesqueira: o também suíço Ricardo Caduff.
Outro trecho do inventário apresenta: um relógio de ouro avaliado em 50 cruzeiros (muito caro na época), cadeiras, bancos, mesas, balanças, 3 revólveres, máquina de descaroçar, prensa para ensacar algodão, relógio de parede, prateleiras, balcão, prensa de copiar cartas, óculo de alcance, livros encadernados e em brochura, duas classes para escola, um globo para estudo de geografia e uma caixa de matemáticas.
Percebemos a existência de itens inusitados, inclusive o material escolar.
No inventário aparecem apenas três escravos, poucos para o tamanho da fazenda.
Os filhos de dr. Constâncio deixaram muitos descendentes em Papagaio e em Pesqueira. Na cidade, ainda hoje, encontramos muita gente com seu sobrenome, embora registrado com muitas variações por erro dos cartórios.
Marcelo do Nascimento.
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Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

O Prédio do Senado de Cimbres [fragmento]

Por  Marcelo Oliveira do Nascimento

*Esse artigo  é um  fragmento
do livro inédito Pesqueira Histórica – Volume 2

  As chamadas casas de câmara e cadeia são talvez o símbolo mais importante do poder das antigas vilas do Brasil. Combinado ao pelourinho e a igreja matriz, formavam seu conjunto administrativo, judicial, legislativo e religioso, sendo estas as bases de seu funcionamento.

 Tais funcionalidades obrigavam as construções a ter um formato padronizado. Eram formadas geralmente por dois pisos. Na parte de baixo funcionava a cadeia, com duas ou mais janelas com grades que davam para a frente. Essas janelas davam para as celas, que eram duas, uma para cada sexo. No piso de cima funcionava a administração e a justiça.
Em Cimbres, o chamado prédio do senado da câmara não segue esse padrão, como pode ser comprovado facilmente com uma análise visual. Ele é formado por um único piso, uma construção bastante modesta que, aparentemente, não tem espaço suficiente para abrigar todas as funções necessárias ao funcionamento da vila.
O que ocorreu no caso de Cimbres é que seu alvará de criação determinou que o governo fosse instalado provisoriamente num salão pertencente aos padres do Oratório de São Filipe Neri. O senado deveria funcionar ali até que a sede definitiva fosse construída, o que acabou nunca acontecendo.
Polêmica é coisa que não falta na história local. Entre tantas existe adata daconstrução do prédio do senado cimbrense. Emborahajam dúvidas,ele deve datar bem antes de1836, já que naquele ano a sede do munício foi transferida para Pesqueira depois de anos de indicativos de que o fato ocorreria. Com certeza o governo não construiria um prédio com a previsão de, em poucos anos, ser desativado.
A primeira determinação quando da criação do município era que o novo governo devia aproveitar a casa dos padres oratorianos para se instalarenquanto o prédio adequado não fosse construído: ficará para as audiências e Câmara a sala nova e grande que os mesmos padres missionários acrescentaram às casas de sua residência” (66). Percebe-se que o espaço que devia ser usado era uma sala anexa à casa de residências dos padres. Entendemos que não era uma sala dentro da residência e sim um acréscimo à estrutura já existente. O que não está claro é se esta sala se ligava diretamente à casa ou se era isolada da mesma. No trecho seguinte temos outra pista: “nestes termos lhe ficará sendo supérflua [ao novo vigário] a dita nova sala e casa” . Parece que eram estruturasindependentes a casa e a dita sala. E ainda parece que a casa era um sobrado pois os oratorianos “deixam casas bastantes e de sobrado para a acomodação muitolarga de qualquer outro pároco”.
O que se vê atualmente na área ao redor do prédio do senado em Cimbres são algumas casas residenciais de construção recente. Se havia uma casa antiga ou sobrado que pertencera aos oratorianos, há muito tempo não existe mais. Dessa forma não podemos garantir que o prédio seja a sala citada no texto de 1762. No mais, o prédio foi construído isolado por todos os quatro lados.É interessante observar também que o prédio tem divisórias internas bastante primitivas, com madeiramento das forras das portasnos mesmos moldes da porta de entrada bem como das janelas externas. Esse detalhe o invalida como “sala”, a menos que as divisórias tenham sido feitas depois, mas não é o que parece.
Durante o passar dos anos, é natural que muitas histórias apareçam e, até que se obtenha documentação para validá-las, nunca saberemos sobre sua autenticidade. O velho prédio do senado, além de não conseguir comprovar sua data de “nascimento”, como se não conseguisse descansar em paz, é envolto num mistério, tudo depois de uma reforma feito pelo então prefeito do município Ésio Araújo. O que o ocorre é que alguns dizem em Pesqueira que durante aquela obra o prédio foi literalmente reconstruído. Há quem diga que ele foi demolidoe em seguida refeito tijolo a tijolo!

A primeira pessoa a questionar esta versão dos fatos foi Marciana Nascimento, que estudou a única fonte sobre a obra encontrada até agora: o Álbum do Município de Pesqueira (1948-1951).

De fato, não parece ter havido reconstrução e sim reforma. Pelo menos é isso que encontramos documentado, além do fato de não encontrarmos lógica na demolição para posterior reconstituição. Qual a vantagem de uma obra deste tipo?
Talvez essa história, que acredito ser apenas lenda, tenha surgido pelo uso inadequado (?) do termo “reconstrução”. Encontramos largamente na história de Pesqueira esse termo sendo usado como reforma, melhoramento, recuperação, etc. Foi assim com a igreja matriz de Cimbres, com a capela de Pesqueira, com o antigo talho municipal, dentre outros casos.

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O Livro da Criação da Vila de Cimbres (fragmento)



Poucos lugares têm o privilégio de contar com uma coleção de documentos tão importante como Pesqueira. Não pelo simples motivo de os mesmos existirem devido à idade do lugar, mas perincipalmente por terem sido salvos por séculos, como é o caso do Livro da Criação da Vila de Cimbres.

Volto ao tema Literatura para apresentar uma das mais fascinantes fontes primárias que se tem notícia na história local. Minha intenção em abordar tais livros é facilitar a busca dos eventuais novos pesquisadores por informações relativas à história de Pesqueira. Assim o fiz com Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, de José de Almeida Maciel, e Ararobá Lendária e Eterna, de Luís Wilson. Naquela ocasião, procurei fazer uma explanação do que era possível encontrar naquelas obras. Já neste caso, tal tarefa se torna muito mais difícil, pois não se trata exatamente de um livro que trata da história de Pesqueira e Cimbres, mas de uma coletânea de documentos datados desde meados de 1700.

Nele, durante o período de 1762 a 1867, foram anotados os mais diversos documentos referentes ao município de Cimbres, primeiramente em sua fase de funcionamento na vila de mesmo nome e continuando, após 13 de maio de 1836, na povoação de Pesqueira.
O original do livro foi manuseado por vários pesquisadores pesqueirenses: Cazuzinha Maciel, Luís Wilson e outros. Creio ter sido, o manuscrito, o que de mais precioso tiveram em mãos quanto ao assunto história local.
Mesmo de tão grande valor, a ele nunca foi dado o tratamento merecido até que, por ironia, uma enchente o salvou.
Em 1977 o riacho da Baixa Grande invadiu o arquivo da prefeitura municipal pela terceira vez, conforme conta José Florêncio Neto. Com autorização do então prefeito Eutrópio Monteiro Leite, Florêncio pôs-se em socorro da documentação que fora organizada em 1865 por Zeferino Galvão. Ele conta ainda que conseguiu salvar, parcialmente danificados, além do Livro da Criação da Vila de Cimbres:
  • Atas da Câmara Municipal de Cimbres (1840-1856)
  • Livro de Qualificação dos Eleitores de Alagoa de Baixo (atual Sertânia)
  • Registros das matrículas da Escola Municipal de Pesqueira do sexo masculino (1900-1909)
Tão importante quanto aquele resgate, foi o interesse de Florêncio em dar início a uma demanda por tornar público aquela coleção de documentos de mais de 200 anos. Para isso contou com as orientações dos historiadores Nelson Barbalho, Luís Wilson e, entre outros, José Antônio Gonçalves de Mello. Este último tendo o aconselhado a proceder com a leitura paleográfica do texto original manuscrito.
Obs: O presente texto é o fragmento de artigo a ser publicado, em versão completa, no volume 2 da série Pesqueira Histórica.

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O Talho Municipal de 1924


A primeira metade da década de 1920 registrou muitas obras no município de Pesqueira. Algumas são creditadas ao governo do Estado, mas muitas foram feitas pelo próprio governo local, no caso, na administração de Cândido de Brito, o popular Major Candinho. Entre elas, a de maior valor arquitetônico (sem discutirmos sua utilidade pública) foi o Talho Municipal. O termo caiu em desuso, mas, felizmente, se mantém gravado na fachada até hoje.
A gravação do ano de sua construção também está intacta no frontispício: 1924. Já são quase 90 anos do prédio e, pelo que observamos, restam poucos da mesma espécie e época no Estado.
Aquela década foi bastante movimentada em Pesqueira. Em 1925, o governador Sérgio Loreto visitou a cidade. Entre as obras do Estado da época, registramos a cadeia pública e o grupo escolar Virgínia Loreto como exemplares de bela arquitetura ainda hoje preservados. As edificações foram inauguradas em 1924 e 1925. Aliás, a viagem do governador à cidade foi para atender o convite para a inauguração do grupo escolar.
É natural que o Estado, com mais recursos e provavelmente munido de bons profissionais da área da arquitetura e construção, fizesse obras tão bem acabadas como as citadas. E isso reforça ainda mais o espanto com que se encara a arquitetura do antigo talho construído pelo município, que ainda hoje chama a atenção pelos belos traços. Preferências a parte, é evidente que a predominância atual das edificações sem qualquer identificação de estilo (e gosto muitas vezes duvidoso), amplifica a beleza das antigas construções.
Outro fato curioso é o acanhado tamanho da construção original, que corresponde à parte da esquerda de quem a mira de frente, exatamente a parte referente à fachada desenhada. Até 1950 o talho tinha apenas aquela pequena área e um curral ao lado. Com o tempo, com o aumento da população, da economia e, consequentemente do consumo, o talho ficou pequeno demais.
Em 1951, no governo de Ésio Araújo, a prefeitura procedeu com uma grande ampliação no prédio. Tenho a impressão que pelo menos duplicou de tamanho. Na obra foi previsto o gasto de Cr$ 600.000,00 e a previsão de finalização era meados de novembro de 1951, conforme encontramos no álbum Município de Pesqueira 1948 – 1951, publicado no fim daquele último ano, na gestão de Ésio Araújo:
Iniciada recentemente, encontra-se em plea plena atividade a construção do majestoso edifício do Açougue Público Municipal e que será entregue à população pesqueirense em meados de Novembro próximo. A despesa consignada no orçamento dessa importante obra é de Cr$ 600.000,00.


No mesmo álbum, em seguida, consta a informação de que a ampliação foi feita no curral lateral. Podemos constatar visualmente, mas o texto confirma:
A construção do Açougue Público no local onde estava destinado ao recolhimento do gado em dias de feira, motivo à edilidade construir um novo e amplo curral para os animais, dispondo de cocheiras, gastando com essa iniciativa a quantia de Cr$ 21.669,80.
(Ob. cit., sem numeração de páginas)


O segundo curral, creio, foi feito no início da estrada de Poção, logo após o cruzamento da rua Carlos Leitão com a avenida Ésio Araújo.
Cabe a ressalva que não houve construção do açougue daquela vez, como consta no texto, a obra era na verdade uma reforma do prédio já existente desde 1924, uma ampliação. Em Pesqueira se registra muito “construção” ou “reconstrução” no lugar de ampliação reforma, recuperação, etc. Isso muitas vezes impede o entendimento correto dos fatos.
O termo “majestoso edifício” denuncia a percepção do seu estilo e bom gosto mesmo naquela época.
A reforma empreendida por Ésio Araújo é bastante interessante para se observar o estilo arquitetônico de cada época. Percebemos com facilidade o contraste entre os dois estilos do prédio. A parte original da época do Major Candinho, embora simples, é bem desenhada, com curvas e certo requinte. A parte “nova”, da época de Ésio Araújo, é extremamente simples, de linhas retas, sem qualquer rebuscamento. A separação temporal das duas partes nem é tão grande, pouco mais de 20 anos, mas a diferença nos estilos arquitetônicos é evidente.
Segundo informação do Álbum de Pesqueira – 1923 a 1925, o açougue foi inaugurado em 21 de junho de 1925 (41). Curiosamente foi no mesmo dia em que, às 13:30, chegou à estação ferroviária de Pesqueira o governador Sérgio Loreto, mas não encontro registro de sua participação na inauguração.
O açougue funcionou no histórico prédio até 2007, quando o comércio de carnes foi transferido para o prédio da antiga fábrica Peixe, onde já estava funcionando a feira livre. Em 2008 ele passou a abrigar a Universidade Aberta do Brasil, que foi transferida do prédio do CAIC.
Esse novo uso a qual foi destinado, embora nobre, é incompatível com as características da construção, que de forma alguma é apropriada para estudo, leitura ou qualquer outra atividade intelectual. De qualquer forma, enquanto estiver ocupado, é pelo menos mais um motivo para mantê-lo bem conservado.




Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

Prédio da Fábrica Rosa em processo de tombamento pela FUNDARPE

Nem tudo está perdido! A FUNDARPE deferiu a proposta de tombamento, no mês de maio passado, do prédio histórico da antiga Fábrica Rosa, fundada pelos irmãos Didier em Pesqueira no ano de 1906. A construção, hoje pertencente ao governo do Estado de Pernambuco, entra assim em regime de preservação, mesmo antes da conclusão do processo. Ainda resta a esperança de que o pouco que resta do nosso patrimônio material seja salvo!
A leitura do edital de tombamento permite conhecer os motivos do deferimento da abertura do processo:

GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO
SECRETARIA DE CULTURA
FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE PERNAMBUCO – FUNDARPE
EDITAL DE TOMBAMENTO

A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco -FUNDARPE, torna público que o Estado de Pernambuco por intermédio do então Secretário de Educação, Dr. Nilton Mota Silveira Filho, deferiu a proposta de Tombamento da ANTIGA FÁBRICA ROSA(Processo SECE nº 0414047-2/2010), ato fundamentado na legislação estadual, CEP/1989, Lei nº 7.970/1979 e Decreto nº 6.239/1980, normas em consonância com a legislação federal pertinente à matéria, CF/1988 e DL nº 25/1937. O bem em questão, de propriedade do Governo do Estado de Pernambuco e cedido parcialmente à Prefeitura Municipal de Pesqueira conforme previsto na Lei nº 11.980, de 07 de maio de 2001 , localizase à Avenida Comendador José Didier, números 166 a 308, Pesqueira (Agreste Central). A incidência deste Instituto Jurídico de proteção pelo Poder Público Estadual sobre o mencionado bem decorre da importância e características especiais como patrimônio construído, detentor de relevante expressão cultural. A Fábrica Rosa possui volumetria e características arquitetônicas preservadas, tornando-se, assim, um notável exemplar do complexo industrial que impulsionou o desenvolvimento e a história da cidade de Pesqueira. Cabe ressaltar a conservação do seu conjunto de edificações e equipamentos que se coadunam com os objetivos do Tombamento, agregando maior valor ao monumento. Pelo exposto, salienta que a partir da abertura do processo de Tombamento, fica assegurado ao referido imóvel, em exame, até a resolução final, o mesmo regime de preservação dos bens efetivamente tombados, conforme estabelecem dispositivos das normas infraconstitucionais acima citadas.

Recife, 23 de maio de 2013.
Severino Pessoa dos Santos
Diretor-Presidente

Feira do Doce e da Renda, 1992
Imagem: Evandro Wanderlei




Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

O Poço Pesqueiro, onde era?


Os escritores que já se aventuraram a contar a história de Pesqueira são unânimes em afirmarque a tão citada fazenda fundada por Manuel José de Siqueira recebeu o nome de “Poço Pesqueiro” em referência aum verdadeiro poço1existente nas proximidades. É unânime também a afirmação de que o poço era usado como lugar de pesca pelos índios da tribo Xukuru, daí o nome de “poço pesqueiro”, pois assim o era.


Quando da fundação da fazenda, Manuel José de Siqueira teria tomado o nome para batizá-la.
Esse é o tipo de informação que vai passando verbalmente de geração para geração, já que, não sendo um bem material e sim natural, não há nada a se registrar em documento oficial. A citação mais antiga na qual aparece o nome do lugar onde a fazenda fora instalada data de 1801 e figura como “sítio Pesqueiro” (1). Trata-se de documento de doação da propriedade a Manuel José de Siqueira feita por seu sogro Antônio dos Santos Coelho da Silva, capitão-mor de Cimbres e proprietário da riquíssima fazenda Jenipapo, hoje território do município de Sanharó.
Em documentos posteriores o lugar aparece ora como “lugar da Pesqueira”, ora como “lugar do Pesqueiro”, dentre outras combinações.
Sabemos que o núcleo da fazenda ficava exatamente onde hoje se localiza o quarteirão da rua Cardeal Arcoverde, que vai da câmara de vereadores à capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens. Algumas construções daquela época continuam de pé como provas inequívocas da localização.
Sobre o local do poço, a maioria concorda que ficava no curso do riacho Santana, que nasce na serra do Ararobá e corre nas proximidades do núcleo do primitivo núcleo da fazenda, hoje nas imediações do Seminário São José. No entanto, existe outra corrente de opinião que afirma ter sido o poço no riacho Salgado, que também corre, hoje canalizado, nas proximidades do antigo núcleo, por traz das antigas construções, onde hoje fica a rua vigário Espinosa. Para estes o poço ficaria, numa localização atual, cerca do antigo complexo da fábrica de doces Tigre.
O principal defensor dessa tese era o padre Frederico Maciel, que desenhou inclusive um mapa dando a localização exata do poço, que, segundo ele, ficava em frente à fábrica Tigre, um tanto à esquerda, na curva do riacho Salgado antes da antiga passagem de Pesqueira (2).
Ainda segundo Maciel, o poço:
Foi totalmente aterrado pelo mesmo riacho carreando detritos e areia, e pelo homem com retraços de folhas de flandres da seção de lataria das fábricas de doce.
O mais interessante da citação de Maciel talvez seja a descrição do poço “em forma de lagoa oblonga e rasa”. Não sei de onde ele tirou essa informação, mas é provável ter ouvido de alguém que tinha conhecimento de sua existência.
Não dá para descartar totalmente essa possibilidade, pois sobre o mesmo assunto há uma história bastante curiosa contada por Napoleão Estanislau, antigo funcionário da Prefeitura Municipal. Ele dizia que o poço pesqueiro devia ficar por perto da antiga Escola Profissional e que ali um poço havia sido aterrado. Ali, certa vez foi encontrado um para-choques de um Ford 1927 ou 29!
Como se vê, parece que realmente existiu um poço naquele trecho do riacho, pois a história de Napoleão Estanislau coincide com a história contada pelo pe. Frederico Maciel (em obra já citada), embora não possamos dar a certeza de que fosse o famoso poço pesqueiro. Como neste caso as fontes orais são um grande apoio para compreendermos os fatos passados, fica o interessante registro.
O que falta de verdade para o poço pesqueiro é se chegar a uma conclusão final sobre sua localização, ao menos aproximada, e se fixar um marco no local. Serviria de guia para o público em geral e para os possíveis pesquisadores.
Marcelo O.N.
24 de junho de 2013, dia de São João.
1Na região, local profundo no curso de um rio ou riacho dá-se o nome de poço.
Referências bibliográficas
(1) Carta do ouvidor-geral da Capitania de Pernambuco ao Rei D. João V. Aquivo Histórico Ultramarino. 27 de março de 1732.
(2) Livro da Criação da Vila de Cimbres (1762-1867). Leitura paleográfia de Cleonir Xavier de Albuquerque da Graça e Costa. CEHM/FIAM. Recife: 1985, pg. 266-267.  
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Como era o IPSEP

Um dos símbolos do serviço público de Pesqueira funcionava na avenida Ésio Araújo. Era a unidade local do antigo Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Pernambuco, o IPSEP.
No meu tempo de criança, havia no jardim da frente uma torneira onde a molecada tomava água depois de sair do antigo CERU e antes de “subirmos” para o bairro de Baixa Grande, isso entre 1985 e 87.
O IPSEP deve ter funcionado em Pesqueira por pelo menos uns 30 anos. Quando fechou no ano 2000, com sua reformulação e transformação no Instituto de Recursos Humanos – IRH1, restou-nos apenas o prédio como lembrança. No mesmo lugar, pouco depois, foi instalado o Condomínio de Cursos e posteriormente a Agência do Trabalho do SINE, atualmente dividindo espaço com um posto de atendimento de saúde da Prefeitura.
O prédio não tem nenhuma característica arquitetônica especial, mas tinha certo significado, o que vem sendo apagado a cada dia por alterações na fachada. Outro capítulo desse atual momento é a pintura de gosto duvidoso. O processo de alterações pode ser visto na sequência de fotos no fim da matéria.
A ocupação do imóvel por parte a Agência do Trabalho é louvável. Pior seria vê-lo fechado e abandonado, mas seria melhor ainda se estivesse bem cuidado, do jeito que ele merece.

Fontes:
1Jornal do Commercio. Recife. Notícia de 02/06/2000.

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