Autor: Marcelo do Nascimento

A maior tragédia de Ararobá

Antônio dos Santos Coelho da Silva, fundador da fazenda Jenipapo, foi capitão-mor de Ararobá, o cargo militar mais importante daquela época. O português, que manteve-se no posto até sua morte em 1822, era um dos homens mais ricos de Pernambuco, dono de grande fortuna e poder. Na sua casa não havia varões, moças apenas. Essa série de caraterísticas atraía muitos homens em busca de crescimento social, econômico e político. Aliás, as terras onde hoje está a cidade de Pesqueira pertenceu primeiro a Santos Coelho, que as deu a Manuel José de Siqueira como dote pelo casamento de sua filha Clara Coelho dos Santos com ele. Vê-se claramente como esse enlace foi importante para Siqueira, fundamental para que ele se fixasse na região em lugar estratégico, o exato lugar onde ele ergueu a fazenda que mais tarde se tornaria sede da Vila de Cimbres.

Reconstituição da casa grande de Poço de Patos
Outro casamento importante saído da casa de Santos Coelho foi de sua filha Ana Vitória Coelho dos Santos com Francisco Xavier Paes de Melo Barreto. O casal foi viver na fazenda Poço de Patos, onde ergueram uma enorme casa em terra também recebida de Santos Coelho em forma de dote.
Os dois genros do capitão eram diferentes ao extremo. Siqueira era sertanejo da região chamada de Moxotó, rude violento e de pouca cultura. Era adepto de resolver tudo na violência, não conhecia o que era a Justiça, embora fosse homem do governo. Xavier era do litoral, tinha cultura e valorizava as Letras. Na residência construída em Poço de Patos deixou bem a sua marca de cultura e bom gosto. A casa tinha capela interna e biblioteca, ao redor da propriedade havia um muro com um portão de ferro bem trabalhado. Das 22 janelas, 17 eram vidraças finas trazidas de portugal, conforme nos conta José de Almeica Maciel (Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, 1980). A única coisa que os dois tinham em comum era a ambição pelo poder. Não se davam, eram inimigos declarados. Xavier era alvo constante das críticas do velho sertanejo Siqueira, que dizia que homens como aquele vinham para o sertão em busca apenas de vantagens, de tirar proveito das moças do interior. No entanto o próprio Siqueira não enxergava que ele também agia por puro interesse.
Quando da morte do capitão-mor Santos Coelho em 1822, deu-se início uma guerra entre os seus dois genros, que lutavam pela promoção de sargento-mor, patente que ambos detinham, para a de capitão-mor. Foram muitas emboscadas e surras entre os homens das duas fazendas, era Poço Pesqueiro contra Poço de Patos. As ameaças eram constantes, que sempre acabavam em sequências de pura violência, mesmo tendo sido os dois finalmente elevados à patente que tanto desejavam. O orgulho de ambos não os deixava dividir o título. Os jornais da época levavam a público essa guerra, que ficou conhecida em todo a província, inclusive na capital. Foi uma história de muitos capítulos e de final trágico. Como o foco desta matéria é apenas um destes capítulos, vamos a ele.
Siqueira, apesar de ter Xavier como seu maior inimigo, nutria muita simpatia e apreço pela sua cunhada Ana Vitória. No entanto acabou sendo o principal acusado da maior tragédia havida na familia. Em 27 de dezembro de 1829, na boca da noite, dona Ana Vitória ouve uma voz conhecida chamar à porta da fazenda Poço de Patos. Ao abrí-la, é recebida por vários tiros e cai ferida. Os homens da fazenda saem ao encalço dos atiradores, mas estes fogem e não são encontrados. 
Nunca ficou comprovado que Siqueira tenha sido o mandante do crime, mas é certo que os tiros eram destinados a Xavier e não à sua esposa. Dona Ana Vitória, dedicada mãe e esposa, falece em 10 de janeiro de 1830, vítima dos ferimentos. Foi sepultada na capela da fazenda Jenipapo, deixando 10 filhos órfãos, entre eles Francisco Xavier Paes Barreto com 9 anos de idade. Este mais tarde se tornaria o conhecido e respeitado Conselheiro Paes Barreto
Depois da tragédia Xavier foi para Recife levando os filhos. Abatido com o ocorrido, debilitado por problemas de saúde, viu ainda a paz que já não tinha ser abalada ainda mais por ações judiciais que ameaçavam o sequestro de seus bens. Sua saúde foi então minguando cada vez mais. E os inimigos não lhe davam trégua, diz José de Almeida Maciel (em obra já citada): “O propósito de fustigá-lo, quando não de abatê-lo impiedosamente, dir-se-ia preocupação única  entre os seus desafetos de Pesqueira.”

Para atender uma determinação judicial Xavier precisou voltar para o interior, fixando-se no Brejo, onde na época estavam residindo os ouvidores da Comarca do Sertão. Eles acabaram determinado um curador para seus filhos e também a abertura de seu inventário, que ocorreu ali em 02 de dezembro de 1830, o mesmo dia no qual recebeu a notícia da morte de sua sogra, dona Tereza de Jesus Leite. Não pôde comparecer ao sepultamento em Jenipapo devido a mais um agravo de sua frágil saúde. A vida lhe aplicava castigo em cima de castigo, até que sua luta chegou ao fim no dia 18 de dezembro de 1830, quando seu corpo (e mente) não aguentou mais os sofrimentos aos quais fora submetido. 
Àquela altura Siqueira já tinha se recolhido em Poço Pesqueiro. Já em idade avançada e abatido pelo ocorrido com a cunhada que tanto estimava, passou a ter uma vida de tristeza. Diziam alguns que sua reclusão se deu por remorso, mas de fato nunca se conseguiu comprovar que ele fosse o mandante do crime. A questão ficara apenas na acusação. Em 19 de outubro de 1831 o velho capitão falece em sua fazenda, sendo sepultado na capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens.

Encerrava-se a maior disputa que se tem notícia ter ocorrido em terras cimbrenses. Siqueira e Xavier fizeram história na política, fizeram riqueza, ganharam respeito e muito prestígio em sua época, mas findaram penosamente.

Por Oliveira do Nascimento

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Este artigo pertence ao Pesqueira Histórica.

A Gazeta de Pesqueira

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Cabeçalho da Gazeta de Pesqueira, de 15/11/1904

O primeiro jornal de Pesqueira, pode-se dizer, foi O Serrano, que circulou na cidade entre os anos de 1901 e 1902. Embora simples (era manuscrito em papel paltado e colorido a lápis de cor), foi o marco inicial da imprensa local. A publicação era obra de um grupo de estudantes com idades entre 11 e 12 anos. Tendo como fundadores os irmãos Anísio e Alípio Galvão, filhos do grande escritor Zeferino Galvão, contava ainda com a colaboração dos redatores Glicério e Elpídio Maciel e Aristides Bezerra Cavalcanti. Os repórteres eram Osório Araújo e Pompeu Augusto dos Santos.
Cada exemplar do jornal, que era formada por 4 folhas, era vendido a 3 vintens e saía aos domingos. Seu conteúdo era formado por pequenas matérias, notícias, desenhos coloridos e exercícios escolares. É o que nos conta Luis do Nascimento (em História da Imprensa de Pernambuco, volume XI). Fica claro o pensamento de vanguarda dos jovens estudantes.
Ainda naquele princípio da história da imprensa local, uma briga entre Anísio Galvão e Glicério Maciel fez com que este último fundasse um novo jornal, que recebeu o nome de A Tarde. No entanto, a nova publicação durou pouco, foram oito edições publicadas aos domingos e vendidas a dois vintens. Seu fim foi decretado pela retomada da amizade dos dois companheiros, voltando Glicério a integrar a equipe de O Serrano.
Sebastião Cavalcanti (fundador da Gazeta de Pesqueira) e família.

Embora o jornal de Anísio e Alípio tenha sido de fato o primeiro passo da imprensa em Pesqueira, ele era apenas um “jornalzinho” de estudantes, embora com todos os méritos. Em 1902, no dia 15 de novembro, surgiu então o primeiro grande jornal da cidade: A Gazeta de Pesqueira. Seu fundador foi Sebastião Cavalcanti, na época um importante comerciante, empreendedor e homem de ampla visão. Entre seus colaboradores estavam nomes como Adolfo Santos e Francisco Alexandrino de Albuquerque Melo e Zeferino Galvão, este o maior escritor pesqueirense de todos os tempos.

A redação funcioanava na então rua Marquês do Herval, 26. Seu tipógrado foi Epaminondas Leite, que foi também o primeiro profissional deste tipo na cidade, segundo informa Luis do Nascimento na obra já citada.
     Primeiro sobrado à esquerda: sede da Gazeta de Pesqueira.  
Foto da coleção dos ex-alunos do Colégio Cristo Rei

O primeiro número da Gazeta tinha sido anunciado 15 dias antes, no dia 01/11/1902, por um pequeno jornal chamado O Colibri, que teve apenas uma edição, especialmente para anunciar a novidade que estava por vir. Aquela primeira edição do jornal de Sebastião Cavalcanti trouxe uma matéria de Zeferino Galvão sobre a Proclamação da República, o que veio a calhar, já que era então 15 de novembro.






O semanário tinha 4 páginas, e às vezes saía com páginas extras, em suplemento. Depois aumentou definitivamente de tamanho, passando a sair com 6 e depois com 8 páginas. Em 1903 uniram-se ao jornal Thomaz de Aquino de Almeida Maciel, Benjamim Caraciolo, João Chacon e Lauro Sílvio.

Ainda naquele ano, Sebastião Cavalcanti adquiriu uma máquina de impressão maior, o que permitiu a reformulação do jornal, que passou a ter então 39 x 28 centímetros, maior que o anterior 25 x 18.



Em abril de 1906 Zeferino Galvão assume a direção e propriedade da Gazeta de Pesqueira, tendo seu fundador se mudado pouco tempo depois para a capital do Estado. Naquela nova fase Adolfo Santos passa a ser o redator do jornal e Anísio Galvão torna-se seu revisor. Zeferino, além de diretor-proprietário, acumula as funções de revisor, tipógrafo e impressor. O maestro Thomaz de Aquino de Almeida Maciel torna-se colaborador permanente.
Zeferino Galvão: o homem que derrotou gigantes.

Em 16/02/1908 o jornal muda novamente de formato e passa a ter 51 x 32 cm. Foi também naquele mesmo ano que Zeferino Galvão, a 15 de dezembro, passou a publicar o seu romance Olâmpio, o Corvo, no rodapé da Gazeta. Em 26/08/1909 passa a publicar do mesmo modo o romance Cadete Bonifácio.




Em 26/11/1911 a publicação da Gazeta de Pesqueira é suspensa, só retornando um ano depois. Seu retorno conta com Glicério Maciel (o mesmo do já antigo jornalzinho O Serrano), que na época enviava seus textos de São Paulo, onde vivia.

Em 1916 junta-se à redação o grande historiador José de Almeida Maciel (seu Cazuzinha Maciel) e o cel. Antônio Japyassu.

A publicação circulou até 1921. Logo depois Zeferino Galvão mudou-se para Recife e lá faleceu em 1924.

Em 1952 a Gazeta de Pesqueira voltou sob a direção de Luiz Neves e tendo Pedro Santa Cruz como gerente. Nessa segunda fase houve a colaboração de, entre outros, Aloísio Falcão, seu Oton Almeida, Jarival Cordeiro e ainda contava com o sempre ativo no jornalismo Glicério Maciel.

Houve ainda uma terceira e quarta fase da Gazeta, em 1961 e 1972, quando foi prefeito de Pesqueira Luiz Neves nas duas oportunidades. Nessas últimas fases, que pouco duraram, estiveram a frente da publicação Oton Almeida, Antônio Farias e Rinaldo Jatobá.

Nunca é demais lembrar que foi nas folhas da Gazeta de Pesqueira que notícias foram dadas e batalhas foram travadas entre Zeferino Galvão e a Great Western sobre a passagem da estrada de ferro entre Sanharó e Pesqueira. Se a nada mais o jornal tivesse servido, isso só já seria motivo suficiente para que sua memória fosse mantida até o fim dos tempos. Aquele “jornalzinho” do interior marcou uma época na qual homens simples conseguiam derrotar gigantes.

Por Oliveira do Nascimento.



Fontes:
Luiz Wilson (Ararobá, Lendária e Eterna, 1980);
Pe. José Maria da Silva (A Imprensa na História de Pesqueira, in Pesqueira Secular, 1980).


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A Casa Grande de Pesqueira: autêntica


Foto: Renata Echeverria

Na matéria postada em 30 de abril de 2011, Casa Grande x Sobrado, foi abordada a dúvida sobre a autenticidade da casa grande da antiga fazenda Poço da Pesqueira. A questão foi causada pela falta de registros suficientes que atestem sobre qual construção na verdade desempenhou a função de sede da fazenda de Manuel José de Siqueira: se o prédio onde funciona a câmara dos vereadores ou o sobrado menor que fica ao lado.
A matéria foi apoiada principalmente na obra Anísio Galvão e Outras Notas para a História de Pesqueira, publicada em 1986 e de autoria de Luis Wilson. Não vou me estender sobre o livro, pois mais detalhes podem ser vistos na postagem já citada. Aliás, para uma melhor compreensão do caso, a leitura é obrigatória.
Depois de tudo que foi dito naquela ocasião, surgiu não um novo elemento, pois trata-se de registro em obra há muito usada e reusada em estudos sobre a história de Pernambuco. Estamos falando dos Anais Pernambucanos de Pereira da Costa, precisamente do volume dez (FUNDARPE, 1985).

Na página 84 da publicação, tratando da antiga fazenda Poço da Pesqueira, o autor diz:

“Apagados desde muitos anos os vestígios da fazenda pastoril originária da cidade, restava apenas o grande  e vistoso sobrado  de vivenda de seus proprietários, que por fim foi comprado pelo governo da província ao coronel Pantaleão de Sequeira Cavalcanti, filho do velho capitão-mor Manuel José de Sequeira, pela quantia de 6:000$000, em virtude de autorização conferida pela Lei Provincial de 30 de julho de 1857, n. 431, do orçamento provincial, para servir de cadeia, fórum e  casa da  câmara municipal.”
Aqui são necessárias algumas observações. A primeira é que, na obra já citada, Luis Wilson não cita Pereira da Costa. Dá-me a impressão de que ele não conhecia esse trecho dos Anais Pernambucanos. Essa é a única explicação que me ocorre para a falta da análise desse importantíssimo registro por parte dele.
Pereira da Costa leva o termo sobrado ao pé da letra (casa de dois pavimentos), por isso trata assim a casa da câmara, enquanto Luis Wilson e outros autores pesqueirenses, como Gilvan Maciel, atribuem o termo a construções de dois pavimentos, no entanto de menor tamanho, como é a construção vizinha da casa grande,    na qual funcionou o Colégio Diocesano e a Gazeta de Pesqueira.

Sobre o Pantaleão de Sequeira Cavalcanti citado, trata-se na verdade do sobrinho do velho capitão, e não do filho. No entanto, ele era casado com a filha deste: Clara Franscisca de Siqueira Cavalcanti, que tornou-se a segunda esposa do primo.

A última observação diz respeito ao nome Sequeira. Segundo Pereira da Costa, era assim que Manuel José de Siqueira assinava, assunto que não vem ao caso no momento.

A dúvida sobre a casa grande pode ser vista também nesse texto da FUNDARPE, disponível em http://www.nacaocultural.pe.gov.br/decreto-casa-de-camara-e-cadeia-de-pesqueira, em 07/07/2011:

“… a Casa de Câmara e Cadeia de Pesqueira tem no térreo as dependências de uma cadeia, e no pavimento superior, as instalações da Câmara, embora historiadores tenham levantado a hipótese de que anteriormente, no local do edifício teria existido inicialmente a sede da Fazenda Poço, construída ao final do século XVIII ou início dos XIX, pelo Capitão Mor Manoel José Siqueira. “

É importante observar que o nome da fazenda não era “Poço”, como diz o texto da FUNDARPE, e sim “Poço Pesqueiro” ou “Poço da Pesqueira”. Outro, agora claro, equívoco é a citação da “hipótese” no mesmo texto. Já temos elementos mais que suficientes para afirmarmos que a casa grande é a mesma que está no local até os dias de hoje, por isso não há lógica em afirmar que havia qualquer outra construção no lugar.

Já está comprovado também que algumas reformas foram feitas no sobrado. É provável que a parte superior da parede frontal, no ponto onde encontra o telhado, tenha sido remodelada, bem como algumas modificações no que diz respeito às portas e janelas e também à parte interior, que com certeza precisou ser adaptada para o novo uso. Mas é só, a casa é a mesma.

Acredito agora que todas as fontes sobre o assunto tenham sido esgotadas. No entanto, se mais algum elemento surgir, o mesmo virá a publico nestas páginas.

Oliveira do Nascimento.


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Quantos anos tem Pesqueira?

O tema a ser tratado é simples, porém, por incrível que pareça, ainda gera embaraços até mesmo nas autoridades e políticos locais.
Pode-se dizer que, como unidade política, a Pesqueira atual surgiu em 13 de maio de 1836, quando a Lei Provincial Nº 20 transferiu a sede da Vila de Cimbres para a povoação ao pé da serra, que naquela época já fazia vários anos que sediava suas atividades políticas. A antiga sede, por ficar no alto da serra, oferecia acesso difícil. Já Pesqueira, embora fizesse poucos anos que não passava de uma fazenda de criação, além de oferecer fácil chegada, já tinha alcançado grande desenvolvimento. Para alguns, o capitão-mor Manoel de Siqueira tinha construído sua fazenda Poço Pesqueiro em 1800 propositadamente para o que ela se tornou. E por pouco o velho fundador não viu a fazenda virar sede da vila de Cimbres, pois morreu em 1831, cinco anos antes.
A Lei Nº 20/1836 não fala em Pesqueira se tornar vila, fala apenas na transferência da sede de Cimbres. Entenda-se que Cimbres mudava de endereço, tudo que funcionava lá devia passar a funcionar oficial e definitivamente na povoação ao pé da serra do Ararobá. É com essa lei que a povoação recebe oficialmente o nome de “Pesqueira” e, podemos deduzir, é transformada automaticamente em vila.
Já em 20 de abril de 1880, a Lei Nº 1484, assinada por Adelino de Lima Freire, vice-presidente de Pernambuco, elevou a vila de Pesqueira à categoria de cidade. A publicação confirma ainda o que já havia sido deduzido antes: Pesqueira já era vila em 13 de maio 1836, e acabara de se tornar a 15ª cidade da Província e a primeira de todo o sertão. A próxima elevação de vila a cidade só ocorreria 15 anos depois, com Petrolina em 1895.

O texto da Lei segue abaixo: 

LEI Nº 1.484, DE 20 DE ABRIL DE 1880
O Bacharel ADELINO ANTONIO DE LUNA FREIRE, Oficial da Imperial Ordem da Rosa, Juiz de Direito e Vice-Presidente da Província de Pernambuco.
Faço saber a todos os habitantes os seus habitantes que a Assembleia Legislativa Provincial decretou e eu sancionei a resolução seguinte:
Art. 1º – Fica elevada à cathegoria de cidade a villa de Santa Águeda de Pesqueira, sob a mesma denominação.
Art. 2º – Ficam revogadas as disposições em contrário.
Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da presente resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nella se contêm.
O secretário da Presidência desta Província a faça imprimir, publicar e correr.
Palácio da Presidência de Pernambuco, 20 de abril de 1880, 59º da Independência e do Império.
(a) ADELINO ANTONIO DE LIMA FREIRE
Algumas cidades, a exemplo de São Bento do Una e Serra Talhada, comemoram seus aniversários nas datas referentes à criação de suas vilas, ou, de forma geral, à sua emancipação política, já que na época do Império era essa a denominação das sedes municipais.

São Bento do Una, se tornou vila em 30 de abril de 1860, quando obteve emancipação de Garanhuns, e foi elevada a cidade pela Lei Estadual nº 440 em 8 de Junho de 1900. Serra Talhada emancipou-se de Flores em 6 de junho de 1851, quando tornou-se vila.
Seguindo esse pensamento, Pesqueira deveria ter comemorado, no último 13 de maio, 175 anos de idade, mas comemorou 131 anos de elevação à categoria de cidade em 20 de abril, como tem sido todos os anos.
Os mais desavisados hão de pensar que as duas importantes cidades citadas como exemplo são mais velhas que Pesqueira. No entanto, como explicado, a realidade é o contrário: Pesqueira, seja como vila ou seja como cidade, é mais antiga que ambas.

Na opinião de Gilvan Maciel (ver Crônicas da Pátria Pesqueirense, 2008, EDUFERPE), que é também a minha, a data magna de Pesqueira devia ser o 13 de maio e não o 20 de abril.

É importante lembrar que para Pesqueira jamais houve emancipação política. E, embora a sede da vila (sede do município) tenha sido transferida, o nome não fora mudado de imediato. Tudo que era assinado em Pesqueira era com o nome de Cimbres, esse permaneceu como o nome do município até 1913, quando por uma decisão local, passou a ser “Pesqueira”.

O assunto vila-município-comarca será tratado com mais ênfase posteriormente, pois é motivo de grande confusão entre a maioria dos leitores. Uma abordagem com mais detalhes, acredito, valerá a pena.

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A Velha Igreja de Cimbres: Adendo

Uma leitura mais atenta ao termo da instalação da Vila Real de Cimbres nos permite acrescentar algo à matéria postada sobre a igreja de Nossa Senhora das Montanhas. E com o apoio da obra do historiador Nelson Barbalho, podemos reforçar ainda mais a existência da construção em época remota já como matriz da freguesia.
Foto: Renata Echeverria

No volume 5 de sua Cronologia Pernambucana (FIAM, 1982), Nelson Barbalho faz crítica às afirmações do escritor Alfredo Leite Cavalcanti quanto ao título da primeira freguesia do sertão que, segundo o grande historiador de Garanhuns, teria sido a Freguesia de Santo Antônio, que data de 1700. Ainda segundo Cavalcanti, a criação da Freguesia de Nossa Senhora das montanhas teria sido “em conjunto com a do município de Cimbres, em 1762”. Essa afirmação está contida em História de Garanhuns. No entanto, Barbalho, especialista em história pernambucana, afirma: 

“Apesar de de Alfredo Leite Cavalcanti haver garantido “não haver existido em Cimbres nenhuma freguesia antes do ano de 1761”, renomados  historiadores pernambucanos  dizem o contrário e afirmam que a Freguesia de Nossa Senhora das Montanhas surgiu exatamente  na povoação de MONTE ALEGRE e no ano de 1692.”

Nelson Barbalho apoia-se ainda no Livro da Criação da Vila de Cimbres, que naquela época ainda não tinha sido publicado, por isso examinou o original do valioso documento do Século XVIII, “que não foi pesquisado nem visto pelo saudoso historiador Alfredo Leite Cavalcanti”:

“… em PESQUEIRA, ainda existe o Livro da Criação da Vila de Cimbres, às fls. tantas do qual vem o manuscrito original  da criação da vila cimbrense, datado de 4 de abril de 1762, em cujo texto não há a mínima referência à criação, naquela data, da freguesia de Nossa Senhora das Montanhas, que, àquela altura dos acontecimentos,  já era velha de setenta anos, enquanto a propalada freguesia de Garanhuns, nas mesma data, ainda estaria para nascer.”

Grifo de Nelson Barbalho.

Já no volume 8 da Cronologia Pernambucana (FIAM, 1983), e ainda corrigindo as informações de Alfredo Leite Cavalcanti, o autor diz:

“Não houve criação conjunta da freguesia de Nossa Senhora das Montanhas e da vila de Cimbres. Esta foi criada em 1762, aquela, em 1692. A referida Ata (da criação da Vila de Cimbres) é clara quando registra: “Enquanto à igreja não de presente que promover e se acha uma competente Matriz desta Vila””.
Nelson Barbalho tece ainda sua interpretação: “Dr. Gouveia Alvares já econtrou em MONTE ALEGRE uma sólida igreja-matriz, em pleno funcionamento e sem lhe apresentar problema algum a promover.”
Sobre a autoria da construção, encontramos na mesma obra: 
“… possuindo igreja-matriz erguida por iniciativa  dos padres oratorianos com ajuda de moradores das redondezas, principalmente membros da família NEVES CALDEIRA TORRES GALINDO.”
Grifo de Nelson Barbalho.

As críticas de Barbalho a Alfredo Leite Cavalcanti são justas. Ele fez afirmações equivocadas, carentes de provas, talvez por desconhecer ou não ter examinado em sua época a importante Ata constante no Livro da Criação da Vila de Cimbres, lamentavelmente. No entanto, isso não diminui em nada o brilho do maior historiador de Garanhuns, um homem de grande talento e perseverança, que lutou arduamente por sua cidade e pela preservação de sua história, obra que pode ser comprovada pelo seu História de Garanhuns (CEHM/FIAM, 1997 [2ª edição]).
As divergências entre as informações dos dois grandes historiadores merece um estudo mais aprofundado, o que será feito em momento oportuno. Garanhuns e Cimbres/Pesqueira têm histórias, de certa forma, interligadas no que diz respeito à Capitania de Ararobá.
Para finalizar, fico com a afirmação final de Nelson Barbalho sobre o assunto: Enquanto não forem apresentados elementos que provem o contrário, a Freguesia de Nossa Senhora das Montanhas, com sua velha igreja construída na então Monte Alegre, foi a primeira a aparecer no sertão de Pernambuco.
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A Velha Igreja de Cimbres

 Em 1692 o bispo de Pernambuco, Dom Frei Matias de Figueiredo e Melo, criou a Freguesia de Nossa Senhora das Montanhas na povoação de Monte Alegre, o mesmo lugar que mais tarde teria o nome mudado para Cimbres. Naquela época já fazia anos que o padre oratoriano João Duarte do Sacramento tinha falecido, mas fora dele e de seus companheiros as primeiras ações de catequese no lugar. O nome Monte Alegre, inclusive, teria sido dado por ele, inspirado nos bons ares da serra.

Igreja de Nª Sra. das Montanhas
Foto: Paulo Ricardo Nunes 

Até os dias de hoje a informação sobre a instalação da freguesia em 1692 tem ecoado, figurando a mesma inclusive na Diocese de Pesqueira como a paróquia mais antiga sob sua jurisdição. É importante observar que ela é na verdade a mais antiga de todo o interior do Estado. Segundo Luiz Wilson (Em Ararobá Lendária e Eterna, 1980), mais velha que as de Tacaratu (de 1772), Flores (de 1783), Garanhuns (de 1778), Buique (1792) e do Brejo da Madre de Deus (de 1797)
No entanto o assunto em questão agora não é simplesmente a criação da freguesia, mas a construção da igreja que lhe serve como sede até os dias de hoje. 
As informações sobre ela são poucas e, de certa forma, contraditórias. O fato da descaracterização e desaparecimento de alguma construções da vila de Cimbres é um dos fatores que muito dificulta o entendimento dos fatos.
No termo de declaração da criação da Mui Nobre e Real Vila de Cimbres (disponível em Livro da Criação da Vila de Cimbres, FIAM/CEHM, 1985) constata-se que os padres do Oratório de São Felipe Neri tinham  à sua disposição algumas dependências, e ficou determinado pelo Dr. Manoel Gouveia Álvares (ouvidor de Alagoas) que nelas seriam instaladas provisoriamente as cadeias e casa de audiências da nova vila até que as construções oficiais fossem erguidas. O ponto é que, ao determinar a localização do pelourinho e das construções oficiais, fica claro que a igreja já estava lá, no mesmo local que está hoje. A data do termo é 03 de abril de 1762:

“… para que se acha levantado o pelourinho de tijolo e cal no meio do dito terreiro e rua larga, defronte da dita igreja matriz e apartado dela notável espaço e distância e a mesma área e terreno foi determinado para praça pública e que a um dos lado, que é o da parte de sul, se edificassem as casas de audiência e as de cadeia…”

Percebe-se claramente que a vila já tinha o formato nos moldes que tem nos dias de hoje. É importante observar que o pelourinho não existe mais e que, em seu lugar, foi erguido um cruzeiro como marco cristão pelo frei Caetano de Messina, OFMcap, em 1852.
Planta Atual de Cimbres
Pelo arquiteto André Lemoine Neves
O frade capuchinho, um dos maiores missionários que sem tem notícia do século XIX, foi responsável pela reforma da velha igreja em 1852. Esta é porém informação que levanta algumas dúvidas. Vários escritores e historiadores são enfáticos em dizer que a igreja foi RECONSTRUÍDA pelo frade. Mas não se sabe se o termo é o mais correto. Talvez a igreja tenha estado em situação de conservação tal que a reforma promovida pelo religioso tenha sido praticamente uma reconstrução. No entanto o mesmo termo já foi usado para explicar a obra feita no prédio do Senado da Câmara de Cimbres em 1950 pelo então prefeito Ésio Araújo. Mas na verdade o prédio do Senado não passou por reconstrução alguma. Como se pode confirmar por fotografia de 1945/47 (em Ararobá Lendária e Eterna, 1980), o prédio estava em lamentável situação, com tijolos aparentes e outras avarias. Mas a informação sobre sua reconstrução não procede. Como o próprio prefeito divulgou na época, uma fotografia constante no álbum de sua administração mostra que o acabamento das paredes foi refeito, dentre outras melhorias, mas a forma original da construção não sofreu alteração e nada foi demolido ou refeito na estrutura.
Interior da igreja
Foto: Edson Regis Lima
Segundo historiadores, como Gilvan de Almeida Maciel (em notas para o Livro da Criação da Vila de Cimbres), a igreja de Nossa Senhora das Montanhas foi fundada por Lourenço das Neves Caldeira (que era descendente de Manoel Caldeira, feitor de João Fernandes Vieira) e sua esposa Josefa de Torres Galindo e funcionou por muitos anos na casa dos oratorianos. O brilhante e sempre respeitável Gilvan Maciel afirma ainda que a atual igreja foi construída pelo tenente-coronel Antônio Francisco Cordeiro de Carvalho em 1843.
Surgem então mais dúvidas: se a igreja foi construída em 1843, como pôde ter sido reconstruída em 1852, apenas nove anos depois? Parece tempo por demais curto para justificar uma obra desse tipo. Até mesmo Pesqueira, que naquele tempo já era bem maior que Cimbres, contava apenas com a pequena capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens, da fazenda de Manoel José de Siqueira. O que levaria então o frei Caetano de Messina a mover a obra de uma igreja em Cimbres bem maior que a capela de Pesqueira?
Ainda confirmando a existência da igreja antes de 1843, há um mapa datado de 1811 das terras dos padres oratorianos que já indica a igreja no alto da serra. Ainda é preciso lembrar que a freguesia foi instalada em 1692, sendo pouco provável ter funcionado em lugar improvisado até 1843.
Trechos de mapa de 1811
Por José da Silva Pinto
Vamos agora recorrer a um dos maiores conhecedores da história Pernambucana, Pereira da Costa (em Anais Pernambucanos, volume IV. Arquivo Público Estadual. Recife, 1954):

“Não se sabe se foi reconstruída por Antônio Cordeiro de Carvalho, que também encontro como fundador da igreja. Seja como for, a que serviu de Matriz foi reconstruída em 1852 por Frei Caetano de Messina”.

         
O grifo é nosso.

          
Pereira da Costa lava as mãos sobre a questão.
        
Ao que parece, a igreja da qual estamos falando é mesmo anterior a 1843, há elementos mais que suficientes para afirmar que em 1762 ela já estava no lugar onde está hoje e que foi reformada de alguma forma pelo frei Caetano de Messina. O que não está claro é se a igreja de Antônio Cordeiro de Carvalho é a mesma ou se é outra, e qual foi a obra por ele realizada.

Com as fontes que se tem disponíveis é o que se pode resumir sobre a velha igreja de Nossa Sra. das Montanhas. Dificilmente novas informações serão acrescentadas às que já existem, já que outros elementos são desconhecidos até pelos maiores conhecedores da história cimbrense. É certo que a impotência de  não podermos contar melhor sua história não vai impedi-la de continuar de pé por todos os anos que vierem pela frente, mas enquanto isso vamos continuar carregando essa dúvida.

Igreja com o Senado da Câmara no fundo à direita e o Cruzeiro à frente
Foto: O Nordeste
NOTAS:

  • A planta do arquiteto André Lemoine Neves mostra na verdade, em linhas tracejadas, quadras que não chegaram a ser construídas. As quadras numeradas com “4” são quadras originais do século XVIII existentes nos dias de hoje.
  • A freguesia de Garanhuns não é de 1778 e sim de 1786, ano em que o curato de Santo Antônio de Ararobá foi promovido a paróquia.

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Mais sobre Poço Pesqueiro: Casa grande X Sobrado

Sobrado e Casa Grande
Foto: Marcelo Tomaz de Oliveira

Na primeira postagem de setembro de 2010 foi apresentado um resumo sobre o que foi a Fazenda Poço Pesqueiro. Como ficou claro naquela matéria, ainda restam muitas dúvidas sobre a velha propriedade que deu origem a Pesqueira. Mesmo tendo sido a fazenda mais importante da região e tendo parte de suas construções sobrevivido por mais de 200 anos, nada disso foi suficiente para manter suas memórias mais antigas preservadas. O problema chega ao ponto da autenticidade da casa grande ser questionada por alguns.

O trabalho mais importante para entendermos essa questão é a biografia de Anísio Galvão escrita pelo sempre mestre Luis Wilson, o mesmo do aclamado Ararobá, Lendária e Eterna. Nela ele nos dá importantes informações sobre a velha casa, a que hoje é sede da Câmara Municipal, que tem o filho de Zeferino Galvão como patrono. Vamos a elas.

O livro citado chama-se “Anísio Galvão e Outras Notas Para a História de Pesqueira”, escrito  sob encomenda do então presidente da Câmara Municipal José Bonifácio Bezerra da Silva. A publicação saiu em 1986. 
Para José de Almeida Maciel, como pode ser visto em suas publicações (v. Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres, 1980), a casa residência de Manuel José de Siqueira na fazenda Poço Pesqueiro foi a que abriga hoje a sede do poder legislativo municipal, mas para outros (como critica Luiz Wilson, v. pag. 31, Ararobá Ledária e Eterna) foi o sobrado vizinho, que abrigou o antigo Colégio Diocesano até 1927, depois d’A Gazeta de Pesqueira, o mesmo que esteve abandonado por anos e foi restaurado recentemente. No entanto, esclarece o autor: “Nesta última (Casa de Anísio Galvão), ‘de construção feudal ou castelã’, conta-se que havia em seu andar inferior duas salas de frente e atrás um ‘tronco’.”
“Havia ainda na mesma espaçosos salões e sua porta de entrada era larga e pesada”

Se não fosse aquela a casa grande da fazenda, não haveria sentido em ali haver tronco ou outra coisa do gênero.

Ocorre ainda que, de fato, a mesma casa abrigou a antiga cadeia de Pesqueira. Assim, alguns defendem que a velha construção foi erguida em 1864 para tal fim. Não sendo ela então a antiga casa grande da fazenda, a que cumpriu tal função teria sido o sobrado vizinho, por sinal bem menor e com estilo bem mais urbano. Mas essa teoria é contestada por Gilvan de Almeida Maciel. Segundo ele, Sebastião de Vasconcelos Galvão, na sua obra Dicionário Corográfico, Histórico e Estatístico de Pernambuco (no volume II, Imprensa Nacional do Rio de Janeiro, 1910), diz que a sede da fazenda era um sobrado, mas essa informação não é encontrada em qualquer outro lugar. Diz ainda Gilvan que aquela construção (o sobrado d’A Gazeta de Pesqueira) não aparece no inventário dos bens do capitão-mor Manuel de Siqueira, esse é outro fato concreto.

É interessante observar que no pequeno sobrado da Gazeta não há possibilidade de ter havido espaçosos salões ou mesmo uma porta larga, características incompatíveis com seu padrão de arquitetura e medidas.

Outra citação importante sobre o assunto é a de José de Almeida Maciel (em obra já citada):

(Manuel José de Siqueira) “deixou uma morada de casas de sobrado (quando D. José veio para Pesqueira como seu primeiro bispo, transformada em seu palácio episcopal) com capela (a igrejinha de Nossa Senhora Mãe dos Homens, primeira padroeira de Pesqueira, vizinha aos dois sobrados, casa de hospedagem (transformada, mais tarde, pelo Cel. Leonardo de Siqueira em municipalidade em cadeia), senzalas”…



E eis a citação definitiva de Gilvan Maciel:

“a arquitetura tipicamente urbana do sobrado em que esteve o COLÉGIO DIOCESANO CARDEAL ARCOVERDE jamais teria sido escolhida por Manuel José de Siqueira, ou qualquer outro fazendeiro do seu tempo, para servir de sede de sua fazenda. A arquitetura rural da época está, ainda hoje, retratada de forma inequívoca nas inúmeras relíquias que lá na região  se encontram à espera de tombamento”.



Sobre a versão da construção ser de 1864, a mesma vem do fato de, naquele ano, um projeto ter sido feito pelo engenheiro Felix Ramos Lieutier  para “construção” do prédio, que deveria abrigar a cadeia pública do município. No entanto, essa informação não tem fundamento, pois esse projeto não foi executado naquele ano. Apenas em 1879 uma reforma foi feita no prédio já existente, confirmação de que em 1864 a construção já estava lá.

Fachada do projeto do engenheiro Felix Ramos Lieutier

A opinião de José e Gilvan de Almeida Maciel é compartilhada por Luiz Wilson: “Não conheço, na realidade, do século passado e primeiros 40 anos deste século, nenhum sobrado como sede de fazenda do sertão.”

Comparando-se a fachada do projeto do engenheiro Felix Lieutier com imagens posteriores, percebe-se que a REFORMA feita em 1879 não seguiu exatamente o que havia sido previsto, mas há certa semelhança. Na verdade, a falta de imagens de época impossibilita saber o que de fato foi alterado na construção original do Capitão Manoel José de Siqueira.

Somando-se a todas essas informações o fato de que uma construção daquele porte, a maior da localidade, dificilmente teria tido outro uso que não abrigar a sede da fazenda, parece mais que razoável a solução da questão. Desses elementos vem a história, digamos, oficial da casa grande de Poço Pesqueiro. Seja como for, hoje em dia essa polêmica já foi esquecida, felizmente.

Sobrado nos tempos do Colégio Diocesano
Foto: autor não identificado

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Pesqueira e o Antigo Termo de Cimbres

Dentre as muitas publicações que abordam os aspectos históricos de Pequeira, este livro é  um dos básicos e obrigatórios. Básico não pela simplicidade, mas pela solidez das informações e pelo período que o autor conseguiu abranger. José de Almeida Maciel fala desde a época da chegada dos oratotianos em Monte Alegre até o período moderno da história pesqueirense (Século XIX). 
Capa do livro. Acervo particular.

Esse trabalho foi publicado em 1980, décadas depois da morte do autor, e na verdade se trata da reunião de vários artigos de jornais publicados originalmente nos ano 40 e 50. Esses artigos foram pesquisados, organizados, e preparados para a nova publicação por Gilvan de Almeida Maciel, filho de José de Almeida. Não sei se ali constam todos os artigos escritos por ele sobre o tema, mas Gilvan conseguiu reunir pelo menos os de maior relevância. A compilação compreende o volume I da trilogia Obras Completas de José de Almeida Maciel e foi publicado pelo Centro de Estudos de História Municipal como o número 9 de uma grande coleção que reúne obras de vários municípios de Pernambuco escritas por autores diversos.

O livro foi dividido em quatro partes: 

1ª Parte – Vila Nobre e Real de Cimbres. Os primórdios.
Como o título sugere, a primeira parte trata do começo de tudo, de como surgiu e como cresceu a Vila de Cimbres, famosa “mãe” da cidade de Pesqueira. Também são citados os políticos mais importantes da época. É apresentada a famosa palestra proferida por seu Cazuzinha na Sociedade Beneficente e Cultural Leão XIII, que contou com a presença de Dom Adelmo Machado, bispo da Diocese. Nos últimos capítulos dessa primeira parte, consta inclusive o curioso embate teórico entre o autor e o padre Públio Calado, os doi vivergiam em várias informações históricas e geográficas sobre Pesqueira e Cimbres. Como já conhecido na época, seu Cazuzinha era o vencedor, já que seu adversário expunha erros grosseiros demais, longe da razão e da realidade.
2ª Parte – Em Pesqueira. Fragmentos da história local.
Nessa parte estão reunidos em 8 capítulos os registros de fatos ocorridos a partir de 1821, com Pesqueira já funcionando na prática como sede do Termo de Cimbres. Entre eles as batalhas travadas entre Manuel José de Siqueira e Francisco Xavier Paes Barreto pela patente de capitão-mor. Os inventários de importantes famílias cibro-pesqueirenses também são apresentados.

3ª Parte – Ainda em Pesqueira.

Nos 13 capítulos são apresentados registros diversos sobre a administração e a política do município no Século XIX. Há ainda alguns registros já do Século XX, como o importante balanço da Pesqueira de 1949, dividido entre 141 quesitos, feito pelo IBGE.

4ª Parte – O Brejo.Velhos Caminhos. Algumas famílias.

A última parte é formada por 6 capítulos que registram fatos passados não exatamente em Cimbres, mas dentro dos limites do Termo. Em especial fala-se do Brejo da Madre de Deus, terra natal dos antepassados do autor.
Impressiona como seu Cazuzinha dominava o assunto. Embora encontremos alguns erros históricos hoje claros, tudo fica dentro do aceitável sabendo que os recursos para pesquisa naquela época eram ínfimos, além de que as atividades de pesquisador e escritor não eram para ele fonte de sobrevivência. Seu Cazuzinha era na verdade comerciante (dono da tradicional Loja Sant’Águeda) e ocupava seu tempo livre com os estudos sobre suas duas terras: Brejo da Madre de Deus, de onde viera sua familia, e Pesqueira, onde nasceu e cresceu.
A linguagem empregada na obra é fácil e atraente. Seu Cazuzinha escrevia bem, e o fato de não ser aquele um trabalho científico, torna o texto bastante leve e agradável, mas, todavia, carregado de valiosas informações. Esse é um dos livros que mereciam ser reeditados em Pesqueira, é essencial e obrigatório.
José de Almeida Maciel foi um dos homens mais importantes para a preservação da memória de Pesqueira (incluindo Cimbres). É admirável e comovente como se dedicou a algo tão grandioso, que demandava tanta paciência e suor, em troca apenas de compartilhar o seu conhecimento e perpetuar os fatos passados. É impossível também não destacar a importância de Gilva Maciel, que teve o cuidado, a paciência e o trabalho gigantesco de reunir e organizar toda a obra do pai para apresentá-la aos mais jovens. Não fosse ele, na melhor das hipóteses, o trabalho de seu Cazuzinha estaria mofado em alguma gaveta, senão perdido para sempre.

O livro pode ser encontrado na Biblioteca Municipal Luiz de Oliveira Neves, que fica na rua Cardeal Arcoverde, em Pesqueira, em frente à Cúria da Diocese.

Essa matéria é protegida por lei de direitos autorais. Ao usá-la, citar a fonte.

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Remontando a Fazenda Poço Pesqueiro

Casa grande de Poço Pesqueiro em antiga fotografia

O COMEÇO

Uma fazenda: Poço Pesqueiro; um ano: 1800, um nome: Manuel José de Siqueira. Esse é o resumo popular sobre o embrião da cidade de Pesqueira, conhecido pela maioria dos seus cidadãos, mas sobre isso há muito o que dizer, a história não é tão simples como é contada.

Manuel José de Siqueira era um sertanejo que naquela época tinha o título de  capitão-comodante e depois de sargento-mor, só mais tarde se tornaria capitão-mor. Sua ligação com Cimbres já vinha de data anterior a 1800, pois ali tinha efetiva atividade política, sendo aquela a mais importante povoação da região. No entanto, seu nome é hoje mais ligado à sua fazenda, tendo suas outras atividades esquecidas, ou até desconhecidas, pela maioria. Segundo Nelson Barbalho (Caboclos do Urubá, 1977), Siqueira era rude, duro e ganancioso. Naquela época o título de capitão-mor de Cimbres era de Antônio dos Santos Coelho da Silva, homem que acabou tornando-se seu sogro. Coelho era um dos homens mais ricos de Pernambuco, influente não apenas em Cimbres, mas em toda a província. Era senhor da Fazenda Jenipapo, propriedade gigantesca que chegou a contar com mais de 400 escravos. As qualidades do capitão, que era pai apenas de moças, não tendo qualquer filho varão, atraiam os olhos de homens em busca de dinheiro e prestígio. Assim, Manuel José de Siqueira, ao casar com a filha mais velha do capitão, Clara Coelho dos Santos, ganhou como dote uma porção de terra na qual no último ano do Século XVIII resolveu edificar sua fazenda.

O ano de 1800, quando Poço Pesqueira fora edificada, é citada por Pereira da Costa, data essa repetida por Nelson Barbalho, José e Gilvan de Almeida Maciel, sendo então de razoável aceitação, embora fontes oficiais nunca sejam citadas. O mesmo pode ser dito sobre o nome da propriedade.

É interessante observar a citação de Pereira da Costa (Anais Pernambucanos, X, 80-81):,

“A povoação de Pesqueira, hoje cidade, teve por origem uma fazenda pastoril situada em 1800 pelo capitão-mor Manuel José de Serqueira, ao sopé da serra do Ororobá ou Cimbres; e descendo desta serra uma volumosa torrente, que na sua base forma uma grande lagoa, em outros tempos, prodigiosamente piscosa, veio daí a sua denominação de Poço da Pesqueira, e depois simplificada em Pesqueira, como assim foi chamada a referida fazenda.”  

Apesar de alguns enganos cometidos por Pereira da Costa, como ao citar “serra do Ororobá ou Cimbres”, é inegável a credibilidade de seu trabalho. Então podemos remontar com segurança Poço Pesqueiro a partir de 1800. E sobre o mesmo assunto Nelson Barbalho (Cronologia Pernambucana, volume 9) informa:

“E assim chegado o seu término o século XVII, decide MANUEL JOSÉ DE SIQUEIRA fixar residência nas proximidades da fazenda de seu abastado sogro, escolhendo para isso o trecho mais fértil de suas terras no Ararobá, aquele próximo do caminho das boiadas e rente ao poço de pescaria abundante, e de logo transformando a sua propriedade agropastoriul  numa das melhores e mais movimentadas da região, com muitos currais de gado forte e bonito, roças de milho e feijão, enorme casa-de-farinha, rude maquinismo de descaroçar algodão, imponente casa senhorial, casa-de-hospedagem, senzala, capela, depósitos diversos.”  
(grifos do autor)

E continua:

“Já no apagar das luzes de 1800, portanto, surge a fazenda, quase povoação do Poço da Pesqueira…” 
(grifos do autor)

Diante desse apanhado inicial de informações é possível concluir quando e como começou a fazenda, inclusive como recebeu seu nome. No entanto, é necessária uma observação a cerca da construção da capela da fazenda no que diz respeito à data. É possível encontrar citações que apontam para sua construção em 1802 e em 1822. Até historiadores pesqueirenses consagrados já citaram as duas datas em suas obras. 
Mais uma vez não há fontes seguras nas quais possamos conseguir tal informação com precisão, mas é possível deduzir que o ano correto é 1802. Pereira da Costa (Anais Pernambucanos, X, 80-81) diz que “Fundada a fazenda, construiu Serqueira várias casas para a gente do serviço, levantou uma capela sob a invocação de N.S. Mãe dos Homens ,para os exercícios religiosos da família…”. O autor não cita datas para cada construção do complexo, mas dá a entender que não sabia nada a respeito do espaço de tempo de 22 anos entre a fundação da fazenda e construção da capela. E ainda, o maior expoente em História e Literatura de Pesqueira, Zeferino Galvão, diz (Antologia, 1924) que  a capela foi mesmo erguida em 1802.

Também é provável que a construção, bastante simples inclusive, tenha se dado em seguida às demais, não havendo motivo para tal espera. Mas, ainda outro fato relevante que nos leva a crer que a citação do ano de 1822 trata-se de um equívoco copiado por vários autores (em impressos e na Intenet), é a luta entre Manuel José de Siqueira e Francisco Xavier Paes de Melo Barreto pelo título de capitão-mor, que naquele ano estava a todo vapor, sendo pouco provável que Siqueira fosse se ocupar com outra coisa que não fosse em reuinir forças para derrotar seu inimigo político.

Poço Pesqueiro era de fato um complexo magnífico, não sendo uma fazenda qualquer. Hoje está mais do que comprovado que Siqueira a tenha planejado para ser o centro político de Cimbres, trazendo o poder para dentro de seus domínios.  A própria fazenda Jenipapo, do seu poderoso sogro, era bem mais simples. Seu progresso foi tão grande que, apenas 36 anos depois de sua fundação, foi declarada vila e séde da Comarca de Cimbres, um fenômeno de desenvolvimento sem precedentes. Segundo José de Almeida Maciel (A Voz de Pesqueira, 01/09/1952), em 1880 Pesqueira já contava com 300 casas de pedra e cal, além de vários casebres, fora toda a estrutura política e comercial que vinha de décadas.

POÇO PESQUEIRO HOJE
Um dos assuntos recorrentes numa cidade histórica é a preservação de suas construções. O embrião de Pesqueira, ou pelo menos parte dele, hoje forma o quarteirão mais antigo da cidade. No final do quarteirão a casa grande erguida em 1800 continua de pé, assim como o sobrado vizinho, que passou anos abandonado mas foi recuperado recentemente. No começo do quarteirão ainda estão de pé a capela de N. Sr.ª Mãe dos Homens e mais dois sobrados contíguos, da mesma época. Porém, sobre estas três últimas construções é necessário fazer uma ressalva: os mesmo foram alterados. Para alguns isso pode ser decepcionante, mas é  fato, tanto a capela quanto os dois sobrados sofreram alterações significativas. As reformas em questão de deram em 1919, quando Dom José Lopes assumiu a recém criada diocese. Sua intenção foi de tranformar o conjunto na cúria diocesana, sede de seu episcopado. Assim, tratou de remodelar a capela e de unir as fachadas dos dois sobrados, tornando-os aparentemente numa construção única, que abrigaria o seu palácio. Para melhor explicação (e prova!), observar as fotos abaixo:

Foto 01

A foto 01 mostra (embora com baixa qualidade) claramente, da esquerda para a direita, os dois sobrados originais e a capela com porta central e duas pequenas janelas no topo, além de uma estreita dependência lateral. Luiz Wilson (Ararobá, Lendária e Eterna, 1980) comenta sobre ela:

“Conta-se ainda que a antiga capelinha lembrava a da Fazenda Jenipapo, do também Capitão-Mor do Ararobá Antônio Santos Coelho da Silva, sogro de Manuel de Siqueira. Era uma capela colonial, sem torre, pequenina, mas com um imenso patamar, e o sino, para chamar os fiéis à prece e as suas festas (.) ficava em uma janela, no alto, no frontão da Igrejinha. Atrás ou a um lado da capela, o cemitério da vilazinha, o primeiro “campo santo” de Pesqueira.”
(pontuação minha)
Ainda sobre a capelinha, Luiz Winson comenta na mesma obra, ao falar da igreja de São Sebastião (que fica no bairro da Baixa):
“Em Pesqueira, diz-se que o seu sino é o que pertenceu à Capelinha de Nossa Senhora Mãe dos Homens, daqui a alguns anos duas vezes secular. Dom José Lopes, quando reformou esta última Igrejinha, transformando-a e sua Capela Episcopal, ao chegar à sua nova Diocese, não se mandou buscar ou se trouxe outro sino da Europa, guardando o antigo, ainda do tempo do Capitão-Mor do Ararobá, Manuel José de Siqueira, doando-o três ou quatro anos mais tarde para a Igrejinha de São Sebastião.”
Dom José Lopes pôs então a torre central, além de belos detalhes em todo o seu exterior. 
Infelizmente desconheço foto de melhor qualidade que mostre a capela em sua forma original, mas é possível perceber sua semelhança com a capelinha de Jenipapo (ver figura 02)
Figua 02 (Capela em Jenipapo)
Foto: Marcelo Tomaz de Oliveira

  

Dos dois sobrados há uma foto perfeita (ver foto 03), na qual, infelizmente não aparece a capela ao lado. Comparando-se com a atual cúria (foto 04) fica fácil identificar as mudanças e a união das fachadas.
Foto 03

Entre a Cúria e o a atual Câmara de Vereadores (casa grande) há outras casas, aparentemente de época remota, inclusive a casa na qual nasceu o historiador José de Almeida Maciel, mas no momento desconheço fontes que indiquem de que época são de fato. É sabido apenas que na época da reforma da capela, tais construções estavam lá como estão ainda hoje.

Foto 04 (complexo atual, capela e sobrados unidos)
Foto: Luiz Antônio Mandu

Foto 05 (casa grande na atualidade)
Foto: Marcelo Tomaz de Oliveira

Na foto 05 é mostrada a antiga casa grande como encontra-se hoje: intacta. Na figura 06 aparece também um dos sobrados da fazenda, que ficou abandonado durante anos, chegando a estado avançado de deterioração, mas anos atrás sofreu uma grande reforma e recuperação.

Foto 06 (à esquerda da casa grande, sobrado recuperado)
Foto: Marcelo Tomaz de Oliveira

Por enquanto parece-me suficiente o explanado. É claro que o assunto não está esgotado, ainda há muito a ser mostrado, discutido. Fora os inúmeros detalhes que não foram tratados, este resumo dá uma idéia geral  sobre a fazenda Poço Pesqueiro, assunto a qual voltarei em momento oportuno.
Muitas dúvidas ainda permanecem.

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